Big Mouth | Temporada 4 - ★ 7,5/10

Apesar das constantes críticas, Netflix deu a luz verde aos quatro comediantes criadores de Big Mouth para fazerem uma quarta temporada. Com as personagens um tanto ou quanto mais crescidas, as histórias que encontramos este ano tornaram-se mais inclusivas que nunca. Não é um feito fácil falar de temas adultos com um vocabulário infantil e, embora alguns percalços, foi exactamente o que a série conseguiu fazer.


É Verão, e alguns dos nossos heróis passam o mês de Junho numa colónia de férias, um ritual emblemático na pré-adolescência do mundo Ocidental. Ainda na cidade outros adolescentes, quer supervisionados por adultos quer não, tomam o seu tempo livre para descobrirem-se a si mesmos e aos seus primeiros parceiros românticos. Com o constante crescimento inevitável, vem também mais problemas e tribulações na vida destes jovens. Como tal, uma nova personagem fantástica é introduzida: Tito, o mosquito da ansiedade, contraposto muito inteligentemente com o gato da depressão introduzido na segunda temporada. Nas palavras deles "costumam trabalhar juntos há muito tempo", e continua o padrão da série de explicar novas experiências com criaturas imaginárias.

Nick, em específico, começa a sentir ansiedade face a situações caricatas, e Tito acaba a influenciar as suas decisões, uma situação muito frequente no mundo real. A série apresenta este aspecto da condição humana, não como um sintoma de algo mais grave - como hoje em dia se vê quase exclusivamente - mas sim como um aspecto do crescimento inerente a qualquer um. Não obstante, mostra como a ansiedade afecta personagens diferentes de maneiras diferentes. De um modo surreal e extremamente imaginativo, mostram como a puberdade é das únicas experiências universais, inevitáveis a qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Além disso, expõem também as várias maneiras como os pais lidam com as decisões dos filhos, quer reagam bem como os pais de Nick apoiam a sua descoberta sexual, quer reagam mal, como a mãe conservadora de Matthew que não aceita a sua homossexualidade.


Na colónia de férias é-nos introduzida uma personagem transsexual durante uns quantos episódios. Natalie explica que há um ano começou a sentir-se extremamente desconfortável com a sua puberdade masculina, e decidiu começar a transicionar para o género feminino. Uma experiência cada vez mais comum nos dias de hoje, foi claro como tanto as raparigas como os rapazes na colónia a faziam desconfortável, a questioná-la constantemente sobre a sua identidade.

A série nunca se envergonhou em explicar temas pouco falados, apesar das constantes críticas, muitas das quais ditam que a história confunde as cabeças das crianças que a visualizam. Por um lado, este tipo de animação não é dirigida para crianças, mas por outro, séries como esta não fazem crianças tornaram-se em nada. O que elas fazem é dar às pessoas o vocabulário para lidarem com estas situações, em vez de sentirem desarmadas pelo desconhecido. Mesmo para pessoas que não estão de momento a passar pelo mesmo ou semelhante, ficam mais conhecedoras sobre comunidades das quais não se inserem.


Uma mudança drástica chegou às notícias, e não foi nas personagens ou na narrativa em si. Reflectida, contudo, na história de Missy aprofundar o seu conhecimento na experiência afro-americana, a sua actriz de voz, Jenny Slate, foi substituída. A série e os seus criadores levaram com bastante raiva por Slate personificar uma personagem cujo pai é preto, apesar da sua mãe ser branca e judaica, tal como a portadora da voz. Apesar de ela tê-lo feito desde o começo da série em 2017, só agora a audiência decidiu que estava errado. No último episódio desta temporada o papel de Missy passou para Ayo Edibiri, que faz uma imitação excelente de Slate, quase inconfundível. Slate disse que tomaram esta decisão apenas depois das críticas, dizendo que "personagens pretas devem ser dubladas por actores pretos". Slate continua, contudo, a vocalizar as suas personagens secundárias.

Missy tem um caminho narrativo de auto-descoberta nestes capítulos, prestando grande atenção à sua herança étnica. Quando visita a sua família do lado do pai, apercebe-se que não entende vários aspectos do que é ser uma pessoa biracial na sociedade Americana. Como tal, uma pessoa não deixa de ponderar se esta linha narrativa foi criada propositadamente para justificar ou espelhar a saída de Slate, ou se era apenas um desfecho orgânico ao qual os escritos se estavam a dirigir. Não foi uma mudança tão radical que mude a essência desta animação, longe disso, mas é um tema e consequente decisão que deixa em aberto umas quantas questões sobre que tipo de personagens é que uma pessoa pode protagonizar, especialmente se ambos o actor e a ficção partilham etnia.


Big Mouth está de momento a fazer o que mais nenhuma série está: explica a sociedade moderna de um modo simplista, de maneira a que uma criança de 15 anos perceba também. Com o exponencial crescimento de guerreiros de teclado a apresentarem opiniões como factos, programas assim são importantes para educar o mundo, especialmente sobre sexualidade adolescente.

Com episódios de 30 minutos hilariantes, ainda que por vezes apenas gratuitamente vulgares, a quinta temporada está a caminho. Dados os risos proporcionados este ano, o próximo promete ser tão insano como este. Os criadores também faziam bem em apostar num spin-off de Cafeteria Girls.



Fotos: Warner Bros. Pictures/IMDB.com







Comentários