Realizadores de Infinity War, Endgame, e uns quantos episódios de Community e Arrested Development, os irmãos Russo lançaram um filme chamado Cherry. Conseguiram adquirir os direitos de produção do material de origem (uma semi-autobiografia da parte de Nico Walker), passando à frente da Warner Brothers, que iria pôr James Franco à frente do projecto.
Com um início tanto ou quanto inconsistente, o filme rodado em 2019 fez grandes diferenças do material base. No entanto, as suas falhas devem-se a muito mais que isso.
Tom Holland protagoniza a personagem principal sem nome, um jovem adulto de Ohio, que se encontra a roubar um banco, que explica à audiência como chegou àquele ponto. Em 2002, ele frequenta a universidade, onde conhece Emily (Ciara Bravo), e rapidamente se apaixona por ela. Proveniente de um contexto familiar corrompido, ela mostra-se emocionalmente indisponível, embora namore com ele. Num impulso, ela acaba com ele, depois de este dizer que a ama, o que faz com que o protagonista, igualmente de um modo impulsivo, se aliste no exército Americano. Quando a jovem se arrepende, é tarde demais, e o rapaz é jurado e consequentemente levado para o Iraque, como médico, durante dois anos. Este evento irá influenciar grande parte das suas decisões futuras. Antes de se ir embora, eles casam-se, e Emily promete esperar por ele.
Apesar da metragem estar cuidadosamente dividida em cinco partes e um epílogo, as escolhas artísticas no início mostram-se conflituosas. O protagonista (creditado como Cherry, embora nunca ninguém lhe chama tal) começa por narrar o que lhe aconteceu durante os vários anos da sua vida, mas também quebra a quarta parede falando no presente. Esta dicotomia invulgar de dupla narração não parece ser a melhor estrutura para expôr narrativa, e rapidamente é esquecida a meio do filme. Além disso, uns quantos planos são misturados com um filtro vermelho-cereja, sem qualquer padrão ou elemento constante entre eles, sem ser as divisórias dos actos.
No entanto, existem pontos fortes no que toca à estética. Durante o treino básico militar, a proporção da tela passa de panorâmico para 4:3, e a palete de cores converte-se numa mais neutra e monótona, provavelmente tentando invocar um clima de guerra de velha guarda. Contudo, esta transformação poderia ter continuado durante a guerra em si, mas houve um regresso à habitual 16:9. Por outro lado, a fotografia falou mais alto durante esta parte, fazendo uma bela encenação de uma zona de batalha que faria Nolan verde de inveja, talvez proveniente da experiência dos realizadores com filmes de super-heróis. Outras sequências sofrem também certas transformações cinematográficas, em particular as que contêm abuso de narcóticos, bem como um uso peculiar, mas não muito atraente, de planos amplos com cenografia muito minimalista. Este último é extramamente usado com raios solares a rebentarem com as lentes, nos filmes de Avengers, o que normalmente proporciona paisagens bonitas, mas que aqui apenas pareceu exagerado e desnecessariamente dramático.
A história em si é capaz de se revelar um pouco longa demais. Apesar do livro ser substancial, isto não é razão para trazer absolutamente toda a informação para o grande ecrã; ainda para mais, se várias liberdades criativas foram tomadas para apreender um tipo diferente de audiência-alvo. Quando Cherry volta a casa com stress pós-traumático e consequentes insónias e ataques de pânico, apenas nos encontramos a meio do filme. É verdade que o núcleo estava nas consequências das suas escolhas, e um espectador irá interessar-se mais em ver o protagonista a lidar com o seu trauma. Aliás, foi uma boa lufada de ar fresco ver literais adolescentes numa zona de batalha, com semi-automáticas à tira-colo e a lidarem com terroristas árabes, já que este género de filmes está a rebentar pelas costuras com actores adultos experientes e de renome. A realidade da guerra é que a grande maioria da carne para canhão é composta por jovens acabados de sair da escola, e a metragem fez um bom trabalho em iluminar esta diferença de idades, bem como o tema de virilidade nesta irmandade improvável.
À medida que a história progride, a vida de Cherry complica-se exponencialmente, mas a narrativa torna-se melhor equilibrada. Tangente a experimental, a trilha sonora tornou-se bastante enquadrante dos eventos que ocorriam, bem como certos momentos interessantes e cómicos quando aparecia em cena elementos que nos diziam que não eram muito importantes, como o psiquiatra com o nome de Dr. Whomever, e o banco chamado Shitty Bank.
Com demasiadas falhas para serem ignoradas, Cherry é uma história decididamente interessante, mas com uma execução um pouco medíocre. Certamente invulgar, visto que vem de realizadores que compuseram os prováveis dois melhores filmes da MCU inteira.
No entanto, Tom Holland é uma grande razão para se gastar duas horas de um sábado à tarde para se ver isto. A sua actuação confere muitos pontos a favor do projecto, mostrando que ainda não vimos o melhor dele.
Fotos: IMDB.com/Apple Studios





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