Séries de animação para adultos são o novo preto. "Rick & Morty", "Mr. Pickles", "Final Space", desenhos animados mas com temas atuais e peripécias menos infantis. "Big Mouth" já se tinha salientado de todas as outras quando estreeou, e agora os episódios mais recentes mostraram porque merece o lugar que alcançou.
Não houve um tema que abordassem sem surpreendente introspecção, nem uma situação em que as personagens se encontrassem com a qual qualquer ex-pré-adolescente nunca se tivesse deparado. A legião de atores de voz voltaram a fazer um trabalho excelente, se não até melhor, e os escritores não se esqueceram dos eventos da temporada passada, criando umas histórias longas correndo em paralelo com as peripécias pequenas. Jessi (Jessi Klein) continua a lidar com a separação dos seus pais, e com a recém descoberta homossexualidade da mãe, o que a leva a ter comportamentos bastante típicos de uma pré-adolescente com hormonas a fazer corridas no corpo dela, mas que na sua cabeça é bastante rebelde. Isto leva a personagem aos pontos altos da série quando começa a roubar maquilhagem e a mentir à mãe, quando come gomas de marijuana com o Nick (Nick Kroll), entre outros.
Assuntos que outras séries tratam, inventando situações desnecessariamente complicadas, "Big Mouth" aborda-as com a simplicidade que lhes é devida. Sexo, vergonha, drogas, orientação sexual, são tudo coisas normais, ensinando até os adultos que vêem isto que a atitude sem-tabus é a mais acertada para nos conhecermos melhor.
Claro que há dúvidas e julgamento na cabeça de miúdos de treze anos, mas a eventual moral da história no final de cada episódio leva-os a aprender coisas sobre si mesmos, estruturando a história com base no que está a tentar dizer. Como se isso não bastasse, uma boa dose de referências de cultura popular é adicionada à mistura para contribuir com um factor de nostalgia ao público-alvo de 25 anos para cima.
O elemento de fantasia é aprofundado em maior escala nesta temporada. A série culmina no Departamento de Puberdade, num mundo paralelo, a origem das criaturas fantásticas da série, onde os amigos de Jessi tentam salvá-la. Não há propriamente um vilão aqui, eles querem salvá-la de ela mesma. Juntam mais seres fictícios aos monstros das hormonas no correr dos episódios, um em particular sendo adicionado neste último, a depressão, que afecta Jessi quando ela deixa de ter forças e deixa-se levar (algo cada vez mais presente neste nosso mundo moderno).
Com arrepiante precisão, esta série torna-se num espelho hilariante. Ao final do dia, até faz mais do que os seus pares ao contribuir para a sociedade com um feito muito importante: faz os adultos de hoje em dia sentirem-se normais com as suas dúvidas, as suas vergonhas, e os seus passados abundantes em embaraço e parvoíce. A série é realmente para crianças, para aquelas dentro de nós que muitas vezes nos esquecemos que existem.





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