Como é o standard com filmes da Netflix, eu entrei nesta história com expectativas baixas. O que acabei por ver foi apenas mais um filme apocalíptico com a mesma receita desgasta. Mal comparado com “A Quiet Place” pelo elemento comum de os sobreviventes de um apocalipse terem de se adaptar a viver sem um dos seus sentidos ou morrer, “Bird Box” é mais semelhante a “The Happening” de Shyamalan por ambos lidarem com uma “epidemia de suicídios”, e todos sabemos o quão mal recebido este último foi.
Neste filme seguimos duas linhas de tempo: a primeira sendo a que seguimos Malorie (Sandra Bullock), com duas crianças, a tentar chegar a um sítio supostamente seguro do perigo, com apenas um barco num rio e vendas nos olhos, e a segunda sendo cinco anos antes, com uma Malorie grávida, directamente depois do mundo começar a desmoronar-se. Entidades invisíveis ao espetador começam a levar as pessoas que as miram ao suicídio, sem que nada as faça parar. Jessica (Sarah Paulson), irmã de Malorie, é uma destas vítimas, que deixa a irmã estranhamente apática quanto a esta morte súbita, visto que ela própria tem as suas dúvidas sobre maternidade e a irmã apenas existia como a sua consciência. Minutos depois Malorie encontra refúgio com um bando de pessoas na típica casa fechada a sete chaves com uns quantos estranhos, cada um representando cada perspectiva vulgar, como quem quer manter-se fechado na casa, quem quer sair e ir buscar mantimentos, ou quem quer esperar que o exército os salve - o habitual.
Por quaisquer razões inexplicadas, o dono da casa (John Malkovich) também parece ter uma reacção extremamente insossa à morte/suicídio súbito da sua mulher, o que é estranho visto que tanto Malkovich como Bullock são actores já cimentados pela maneira como conseguem trazer uma vida tão única e realista aos papéis que fazem. Isto leva-me a pensar na possibilidade dos actores simplesmente terem feito o melhor que puderam com o guião que lhes foi dado, o que não surpreende vindo de um argumentista (Eric Heisserer) cujo único destaque foi o Arrival em 2016.
Isto evidencia-se na maneira como, apesar da acção se desenrolar a um paço aceitável que mantém o suspense vivo, todas as personagens parecem adaptar-se rapidamente à claustrofobia que é não poder sair de casa ou sequer olhar para fora de uma janela, num mundo que foi destruído por completo em menos de 24 horas. Nem a música de Trent Reznor (“Gone Girl, The Social Network) nem a direcção de Susanne Bier (The Night Manager, In a Better World) parecem destacar-se de modo a elevar este título acima de tantas outras histórias do género que saturam a indústria.
Com o seguir das duas partes da história intercaladas, vemos cada vez mais informação sobre estas entidades quase omnipotentes e omnipresentes. Descobrimos que uma das crianças que Malorie leva na sua demanda pelo rio abaixo é de uma das pessoas da casa que morreu (porque claro que morreram todos em dominó). Descobrimos também que existem pessoas que foram transformadas em ferramentas, quase evangelicais, que as entidades usam para chegar às pessoas que sobreviveram. Estes profetas foram a razão pela qual o companheiro de casa e amante de Malorie, Tom (Trevante Rhodes), heroicamente se sacrificou para que ela e as crianças chegassem ao rio onde as encontramos.
No final chegamos a uma comunidade albergada numa antiga escola para cegos, com uma boa centena de pessoas a viver em relativa paz, onde Malorie acaba o filme com as crianças. A falta de explicação e constante acção centrada numa casa onde tudo se discute mas nada se conclui, leva-nos a pensar se a comunidade que encontraram é realmente tão segura como os seus residentes a pintam.
O perigo que é descrito e nunca elaborado faz parecer com que só haja uma coisa em frente: morte certa. Não houve qualquer tipo de elaboração em redor das entidades que nos desse uma réstia de esperança que fosse para o futuro destas personagens, com as quais a execução da história falhou em criar qualquer empatia com a audiência.
A meu ver, elas encontram-se tão presas como no início, apenas em maior escala e com mais variáveis para que a extinção da humanidade seja ainda mais inevitável. Se isto foi o que recebi depois de gastar duas horas da minha vida nisto, então fiquei desiludido. Olhando para trás, não sei porque pensei que um filme de terror em 2018 não fosse feito às três pancadas.
Fotos: Netflix/IMDB.com





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