Chilling Adventures of Sabrina | Temporada 1 - ★ 7/10

Saída a tempo do dia das bruxas, "Chilling Adventures of Sabrina", prima directa de "Riverdale", foi dos poucos reboots desta febre recente que não tentou imitar o passado, mas ao invés disso, inspirar-se nele para fazer algo novo. Misturando sobrenatural, com drama adolescente, com gótico moderno, e adicionando uma pitada de horror de velha guarda, a especificidade desta receita faz com que a série se destaque do seu antepassado, "Sabrina the Teenage Witch", uma sitcom dos anos 90 com o toque de fantasia e sobrenatural, sem realmente conseguir executá-lo de forma a que fizesse justiça ao género. Não é o caso desta versão moderna.


O arsenal de atores adultos (entre eles Miranda Otto, a mulher que não é nenhum homem do "Senhor dos Anéis") copulado com atores novos surpreendentemente bons e com uma química incomparável entre eles, traz uma lufada de ar fresco ao drama adolescente tão usado e abusado por canais como a CW. Sabrina Spellman (Kiernan Shipka, cujo único outro crédito relevante é Sally Draper em "Mad Men") é uma rapariga de 15 anos meio-bruxa meio-humana.

À superfície parece que estamos prestes a ver as peripécias cómicas de mais uma rapariga e as suas amigas, mas isto é negado por um elemento novo: a igreja da noite. Sabrina recebe pressão das suas tias bruxas, com quem vive, para assinar a sua alma ao Diabo na igreja de Satanás, igreja essa que existe no nosso mundo desde os anos 60, e os escritores claramente fizeram a sua pesquisa ao trazer esses elementos para o pequeno ecrã (fora um ou outro exagero para efeito dramático). A adição de personagens cegamente devotas a esta fé, e tantas outras com sérias dúvidas sobre muitas das práticas arcaicas, traz um realismo delicioso a este contraste com a igreja católica, que ao mesmo tempo que os seus profetas tentam distanciá-la, apenas demonstram mais as suas semelhanças.


Há um certo elemento de feminismo nesta edição, algo que não estava presente na série anterior, mas fulcralmente lá nas bandas desenhadas em que esta franchise se baseia. Os riscos e os desafios têm conteúdo e profundidade. Sabrina não está a tentar escolher entre um rapaz para levar ao baile, está a tentar escolher-se a si mesma em detrimento às duas religiões nas quais foi criada, nenhuma delas parecendo-lhe a acertada.

Além das histórias paralelas das suas amigas, é refrescante ver apenas uma personagem masculina adolescente, que só serve como namorado da personagem principal feminina. Não que isso seja o mais correto a fazer, mas certamente libera tempo de antena às mulheres da história, ao mesmo tempo que demonstra o sexismo existente na igreja da noite, de novo, outro elemento em comum com a igreja católica.


Audiências que acham que não gostam de histórias de adolescentes poderão ter que repensar o seu gosto com esta série. O seu escritor principal, Roberto Aguirre-Sacasa, embora tenha criado certos mundos com críticas negativas, não se pode negar o facto que ele sabe criar realidades paralelas tão diferentes e tão parecidas com a nossa. O ambiente envolvente na vida de Sabrina é acolhedor e intemporal.

Os toques góticos apelam à nostalgia do espetador habituado a uma sociedade a rebentar pelas costuras com smartphones, redes sociais e tecnologia ultra-avançada. Reconhece a existência de tal, mas não tenta focar-se nisso e ser algo que não é (relembremos o desastre que foi a aventura cibernauta de Melinda Gordon na quarta temporada de "Ghost Whisperer", só para nos sentirmos mais humildes). A realização repleta de mistério e sombriedade torna-se aliciante, embora os cinquenta minutos por episódio podem não ter sido a melhor jogada, visto que o desenrolar da história por vezes parecia quase estagnar.


Não escondendo as suas falhas, "Chilling Adventures of Sabrina" parece usar esta temporada para construir um alicerce forte e estável, exposição e ação numa dança simbiótica agradável e de se apreciar. É uma excelente ideia para quem é ambicioso, mas não quer pôr a carroça à frente dos bois.




Fotos: Netflix/IMDB.com







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