Não estava à espera de muitas coisas nesta série. Lemony Snicket (Patrick Warburton), o narrador desconfiável, disse vezes sem conta que esta história apenas continha miséria e tristeza. Ele sempre disse que esta história não iria ter um final feliz, e que mais valia não continuarmos a ver, simplesmente desligarmos a TV e seguir com as nossas vidas tão deliciosamente aborrecidas. Tanto eu como tantos outros não esperámos uma resolução sequer. Então o que fez tantas pessoas continuarem a ver, apesar destes avisos em literalmente todos os episódios? Muitas razões, a principal das quais foi a promessa vaga de esperança.
Digo "vaga" pois o criador dos livros e produtor da série, Daniel Handler, nunca nos prometeu nada senão desgraça. Agarrou em três crianças, fez delas órfãs, e atirou-as para o mundo adulto, forçando-as a esquecer as suas despreocupações. Toda a série, em especial esta última temporada, tem temas sombrios e mórbidos. Isto não é uma simples história para crianças - afinal de contas temos um adulto consciente dos seus actos a tentar matar três órfãos para roubar a sua fortuna. Logo na primeira história, "The Bad Beggining", como se o título não bastasse, a primeira luz ao fundo do túnel é extinguida com tanta rapidez quanto a que apareceu. Nesta terceira e última temporada nem vemos luzes. É-nos ensinada uma lição muito importante, por vezes ignorada pelos adultos nas nossas vidas: nem sempre tudo dá certo, nem sempre todos sobrevivem, e nem sempre tudo é justo. Aliás, atrevo-me a afirmar quase sempre tudo é injusto, ainda mais quando somos crianças, como os Baudelaire's, e não fizemos nada para merecer tal miséria.
Mas uma pessoa que veja a série quer acreditar que eles se safam. Não é bem querer que os nossos heróis prevaleçam, mas mais, tomamos por garantido que tal aconteça. Não por qualquer egoísmo que nos leve a acreditar que o tempo despendido na série nos seja recompensado, mas porque é assim que quase todas as histórias correm, não é? O herói aparece, acontece-lhe algo, ele eleva-se acima das dificuldades - quem sabe até cresce um pouco - e aprende uma lição valiosa no final. Esta história não corre assim; é apenas um esforço constante de ultrapassar os tempos maus, na esperança, de que virão tempos melhores. A dita bonança que ninguém, senão o provérbio sem autor, nos prometeu. E nem sempre tempos melhores aparecem para os Baudelaire's, quase nunca mesmo. E isso é uma boa alegoria para a vida e para a condição humana.
Há quem possa argumentar que a série tem problemas de paço, mas eu discordo plenamente. A estrutura da história reflecte o seu conteúdo: as crianças Baudelaire estão a tentar resolver o mistério do fogo que matou os seus pais, e a audiência apenas sentirá o que as crianças estão a sentir se ela própria se sentir perdida na história também. A escrita fomenta um sentido de procura, ao pôr as personagens constantemente à beira de uma descoberta, mas que de uma maneira ou doutra essa demanda lhes é arruinada. Apenas com um paço tanto ou quanto lento vamos entender e criar empatia com a frustração destas crianças.
Vemos os Baudelaire a debaterem-se mais e mais sobre o Bem e o Mal. Nestes episódios encontramos vários momentos em que esta dualidade entra em jogo, e se os fins justificam realmente os meios. As personagens sempre vistas como sendo inerentemente boas, cometem actos duvidosos. Estas questões são aprofundadas com o passar do tempo, quando as crianças vão descobrindo que nada é totalmente bom ou totalmente mau, e que até os adultos que são supostos protegerem-nos em crianças se debatem com estas questões.
Tirando a escrita apressada do último episódio, por terem compactado uma resolução tão intensa em apenas uma hora, ao invés das habituais duas por livro, a temporada manteve o nível das outras. Todos os cenários góticos e surrealistas foram claramente elaborados por alguém com um conhecimento imenso, não só dos livros, mas da maneira comicamente humilde com que Snicket descreve o ambiente e as redondezas da acção.
Apesar da série ter resolvido uns quantos enigmas inexplicados nos livros, deitando um pouco abaixo o propósito das crianças aceitarem que nem sempre tudo lhes é revelado só porque elas assim o querem, funciona como uma história sem base literária. A inutilidade das figuras autoritárias contrastada com a persistência dos vilões, desequilibra a vida dos Baudelaire's de uma maneira tão consistente e cuidadosamente curada, que uma pessoa não pode deixar de olhar.
Não vale a pena dizer se esta temporada conclui os enredos num embrulho com um laço bonito, ou se os espectadores irão ficar satisfeitos com o que lhes vai ser apresentado. Acho que dá para perceber o que se avizinha com o que escrevi. Mas se o espectador tiver percebido algo que seja da série, entenderá que não é isso que importa, nem é isso que se deve esperar.


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