Fiquei na dúvida sobre como identificar este novo capítulo de "Black Mirror". Há quem diga que é um filme, há quem diga que é um episódio longo sem a âncora de uma temporada, e há quem diga que é um jogo num formato invulgar. Eu prefiro abster-me de etiquetas e levar esta experiência como algo novo que apareceu na TV, sendo um pouco de todas estas opções, aventurando-me a criticar algo que não estou habituado a criticar.
"Bandersnatch" apresenta-nos Stefan Butler (Fionn Whitehead) nos anos 80, um jovem adulto perturbado que passa o seu tempo a programar um videojogo com base num livro-jogo, ao estilo de que quem segue a história faz escolhas pela personagem, um "escolhe a tua aventura", como o episódio o nomeia. É-lhe dada a oportunidade de comercializar o jogo assim que ele o terminar. Personificando o trágico e torturado artista, Stefan começa a ficar cada vez mais obcecado com o seu trabalho, ele próprio sofrendo de problemas mentais desde a morte inesperada da sua mãe. Pouco tempo depois (ou poucas opções depois) as linhas entre a realidade e a ficção começam a ficar mais ténues.
Existe toda uma multitude de temas nesta peça, dado o número de caminhos que podemos fazer a personagem principal escolher. A mais pertinente e presente questão será a do livre arbítrio, ou a falta deste. Um dos maiores problemas do Stefan é sentir falta de controlo na sua vida, evidenciado pela obsessão de controlar um jogo que, quando parece não obedecer ao seu criador, cria uma agressão imensa nele.
O ano bem escolhido de 1984 traz acima temáticas Orwellianas: todas as escolhas que fazemos (nós e o Stefan) parece que fomos levados a fazê-la. Uma pessoa encontra-se com o luxo de escolher a sua história, e se bem lembramos o clássico, o luxo do chocolate daquele mundo distópico não era grande apaziguador. Ambas as histórias prestam grande atenção a estas subtilezas para nos mostrar que poder e a ilusão deste são duas coisas facilmente confundíveis. Em "Bandesnatch", várias são as opções que trazem resultados extremamente semelhantes, senão descaradamente iguais.
É evidenciada a interactividade fabulosamente escrita e detalhada pelo criador e escritor proeminente Charlie Brooker. Escolhendo as decisões mais fulcrais na vida do nosso herói, vemos várias linhas do tempo do que "poderia ter sido". Estas decisões que temos de tomar para que a história avançe certamente prende a atenção do espectador, criando um ambiente imersivo que leva a questionar se estamos a fazer as decisões mais acertadas. Rapidamente é criada empatia com a personagem ao termos uma fracção do peso que esta leva nas costas.
De acordo com cada escolha encontramo-nos não só em espaços diferentes naquele mundo, mas também nos deparamos com diferentes questões com as quais Stefan se debate. A sua lucidez perante o controlo do espectador cresce à medida que prosseguimos na toca do coelho que é a introspecção humana. Aqui, a monitorização e vigilância entram em jogo quando conseguimos despoletar a paranóia, mais uma vez remetendo a Orwell. O pilar de consciência na personagem da Dr. Haynes (Alice Lowe), a terapeuta do Stefan, questiona-o sobre este sentir que alguém o está a controlar, conferindo toda uma outra camada à situação, perguntando-lhe porque não estariam a olhar para ele dando-lhe uma vida mais interessante. É de se prezar uma história que leva o espectador a questionar-se porque está a segui-la. Poucas histórias o fazem, e ainda menos quebram a quarta parede com tanto choque.
Existem imensas horas de filmagens, que requerem um certo louvor. Existem detalhes um tanto subtis, como a simetria envolvida em situações calmas na vida de Stefan, bem como o súbito desaparecimento desta em situações de stress; ou por exemplo a quantidade de páginas de rascunhos a aumentar à medida que o jogo dele fica mais complicado. Tudo isto ajuda a exteriorizar e materializar as várias camadas que se vão criando ao longo do tempo. Vemos flashbacks com um filtro nostálgico com apenas uma opção por escolher. Será mesmo uma opção quando não temos mais qualquer outra para escolher? Isto não diz, mas sim mostra a natureza inalterável do passado.
Como é posto em causa na série, com todas as opções que uma pessoa tem, é impossível de se saber se existem outras linhas de tempo com outras versões de nós lá. Uma personagem chega a dizer que a nossa morte de nada significa, pois um outro "eu" nosso continua a viver noutra linha de tempo paralela à nossa. Desta maneira, nenhuma se sobrepõe à outra. Tal e qual na história, nenhum final é o "certo": é o que o espectador quiser. O voyeurismo é cuidadosamente e lentamente trazido à flor da pele à medida que procedemos na vivência desta personagem.
Haverá melhor maneira de nos fazer experienciar algo que a outra pessoa está a experienciar do que recriar essa situação no conforto das nossas casas? Provavelmente. Mas decerto nunca irá ser tão divertida e envolvente. A história foi bem escolhida para experimentar esta interactividade, que, a meu ver, foi excelentemente executada.
Fotos: Netflix/IMDB.com



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