Poucas são as vezes que se encontra uma produção portuguesa de jeito. Infelizmente, isto é verdade. Mesmo nos projectos recentes, em particular as séries, onde se anda a gastar tanto tempo e dedicação. São premissas originais, com boas intenções, mas parece estar sempre algo a faltar: ou é o som mal gravado, ou é a história inconsistente, ou são os actores exagerados... Há sempre uma falha gigante que impede que a audiência se mantenha atenta. Não sei porque é que as estrelas estavam alinhadas quando se fez "Sara", mas também não me atrevo a questionar isso.
Cozinhada por Bruno Nogueira, a minissérie é protagonizada por Beatriz Batarda, sua mulher, cuja única semelhança com a personagem de Sara Moreno é que ambas nunca tinham feito televisão. E é aqui que começa o primeiro episódio: numa produção de uma longa-metragem, e com Sara à beira de um colapso nervoso. Conhecida por ser a actriz trágica e dramática, o incessante chorar e sofrer esgotam-se, e Sara desiste da produção, dizendo que não consegue chorar mais, no que parece ser o início de uma crise de meia-idade, conjugada com a dúvida artística. Nisto, decide ir ver como está a viver a outra metade do mundo do espectáculo, assim marcando o tom para o resto dos episódios, com Rita Blanco a dizer-lhe que não é a melhor ideia de sempre.
Esta sátira toca em todos os pontos do mundo dos audiovisuais. Sara decide protagonizar uma novela no papel de "Menina Ana Rita", cujo criador diz que vai ser "super cinematográfica" e com "fotografia do caralho". Se uma pessoa vir os excertos da telenovela fictícia "Sangue de Paixão" fora do contexto da série, facilmente assumiria que era uma novela real. Estão lá todos os clichés: o logotipo omnipresente, as conversas desnecessariamente tensas, a luta pela autoridade, o romance proibido, a música tão alta que mal ouvimos as conversas... e tudo isto lindamente contrastado com a execução quase perfeita da série em si, para uma pessoa descobrir as diferenças por ela mesma. Este contraste também passa pelas personagens em si, caricaturas de todos os que trabalham nesta área, e de nenhum em particular. Digo isto assim porque são baseadas em figuras reais, mas sem se parecendo completamente a alguém em específico, chegando a fazer com que as cenas por detrás da câmara pareçam orgânicas, apesar de serem calculadas.
Com o passar do tempo, vemos Sara a aderir às redes sociais, a dar entrevistas às revistas cor-de-rosa, e a experimentar terapias alternativas. Depois de décadas a fazer teatro e projectos "sérios", decide seguir as modas com as quais sempre se orgulhou em não seguir. Esta linha de história passa-se concorrente à do pai de Sara, que está preso no tempo. Debilitado e silencioso, a filha toma conta dele ao final do dia. Apesar de em sua casa fazer batidos de abacate e açaí, sem ter a certeza se gosta deles ou não, para o pai cozinha pratos tradicionais, como sardinhas fritas, ou carne de porco à alentejana. Esta comida simboliza o afastamento na relação deles, danificada pela inesperada morte da mãe da Sara, há uns bons anos atrás.
Uma questão colocada na vida de Sara é se ela não estará presa como o pai: nunca casou, nunca foi mãe, e até em entrevistas nega que precisa disso, mas as dúvidas estão presentes na sua mente. Isto evidenciado pelas cenas surrealistas presentes nos episódios, que nos mostram a introspecção na mente da personagem, tanto manifestadas no dia-a-dia dela, como representações simbólicas nos seus sonhos. Apesar de todas as decisões novas na sua vida, ela chega a discutir consigo mesma (a sua consciência protagonizada por Albano Jerónimo) quando estas decisões são tão estranhas que ela nem consegue acreditar que são dela.
O culminar chega no talk-show depois das centenas de episódios da telenovela, em que Sara e o seu par amoroso na história, João Nunes (Nuno Lopes), são convidados. A nossa heroína não consegue levar-se a louvar a mediocridade na qual participou, e decide denunciar as vulgaridades presentes na televisão portuguesa. Num aparente ataque de nervos, resume o que a série esteve a demonstrar o tempo inteiro, em particular como aquele tipo de projectos melodramáticos apenas embrutece a audiência. Especula que as pessoas "lá em casa" querem coisas diferentes, uma questão que atormenta a sociedade em que vivemos.
É uma perspectiva interessante, facilmente dada como acertada. Isto até que João tenta retornar ao tom alegre do programa, com a sua caricatura de José Fidalgo em grande força, mas depois deixa mostrar a Sara uma camada da personalidade dele. Ofendido com o que ela disse, pergunta-lhe se já pensou "que as pessoas andam só deprimidas e cansadas" e se "só querem saber se o Manuel vai ficar com a Ana Rita ou não". É deixado em aberto qual dos dois está certo, ou se ambos estarão, mas nenhum totalmente.
Existe tanto detalhe delicadamente colocado que até se torna difícil de desempacotar. Bruno Nogueira e os seus acólitos esbanjaram todo o conhecimento de ouro que tinham dos auto-proclamados intelectuais que infestam esta esfera da sociedade portuguesa. Denunciou as aparências das pessoas que habitam nas nossas televisões, mostrando que a maioria é apenas fogo de vista. Há personagens como a de Sara que se aproveitam, mas até elas se perdem na sua seriedade, e a falta de humildade pode também fazer delas uma paródia delas mesmas.
Não sei onde podem ver a série agora sem a piratear. Talvez saia em DVD em breve, talvez volte aos suportes cibernéticos permanentemente. Ou talvez esteja perdida no tempo, tal como a história que está a contar, sem qualquer âncora, intemporal e imutável. Foi uma sorte poder ter acompanhado uma história contada desta maneira.




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