Sem imensa publicidade, e com igual expectativa, "Sex Education" estreeou-se sorrateiramente. É difícil fazer uma rendição da vida adolescente que seja fidedigna, ainda para mais hoje em dia, quando todos estão mais atentos a falhas e incongruências. Inúmeros são os exemplos do que não resulta, portanto já estava mais que na altura que alguém olhasse para tais erros e fizesse algo que ultrapassasse isso tudo.
Asa Butterfield ("Hugo", "Ms. Peregrine's") protagoniza Otis Milburn, um adolescente sexualmente reprimido, cuja mãe (Gillian Anderson, da fama de "X-Files") é uma terapeuta sexual. Socialmente inapto, ele passa o seu tempo a fazer pouco senão fingir que se masturba, e a sair com o seu único amigo. A sua personagem está surpreendentemente à vontade falando sobre sexo e os seus mecanismos, para um adolescente com fobias tão intensas, e é este contraste que o destaca. Quando ele consegue ajudar um colega com disfunção eréctil, uma rapariga aproxima-se dele com a ideia de criarem uma clínica sexual para fazer dinheiro, estabelecendo a trama base.
Esta ambivalência de Otis, além de ser comentada pelos seus pares, é também evidenciada, pelos contrastes dos espaços utilizados na série. Nunca dão um nome do local em específico, apenas mostram as casas das personagens e a escola que frequentam, locais estes situados no meio de espaços abertos, carregados de natureza por todo o lado. A escola magnânima parece ser rodeada por um perfeito círculo de floresta, e as casas das pessoas mantêm uma modesta distância entre si. Não é bem uma vila rural, mas mais um ambiente que não pode ser apontado num mapa. Esta exposição inquietante no ambiente envolvente entra em choque com os temas de isolação tratados na história, criando uma agorafobia artificial, para nos aproximar dos sentimentos e pensamentos das personagens, da inquietude presente na vida de adolescentes que se andam a descobrir sem certezas de nada.
A série também junta elementos de várias décadas e países. Além dos smartphones usados por personagens com vestuário dos anos 80, numa escola onde todos têm um sotaque britânico há vários elementos da cultura americana. As festas têm copos vermelhos e beer pong, e os alunos têm futebol americano e casacos da equipa da escola. Uma das raparigas até vive num parque de caravanas numa vala. Alienando ainda mais este mundo, seria de esperar que se convertesse em algo contrafeito, mas com imensos elementos familiares do nosso, torna-se em algo que seja apelativo a todos e comum às histórias da vida dos espectadores.
Porque estes temas são, de facto, comuns a todos. São assuntos reais que, com um toque fictício e uma escrita impecável, tornam-se leves e tão fazíveis que ideias mirabolantes parecem credíveis. Estes tabus, que lentamente se tornam o contrário com o passar dos anos, são descritos e mostrados com a introspecção necessária para serem bem abordados. São clichés, sim, mas clichés assim se tornaram por resultarem. Contudo, a história não raspa esta matéria e fica-se pela superfície. Não nos apresenta uma rapariga de 16 anos que engravida e simplesmente vai abortar, sem denunciar o peso psicológico que isso causa. Não nos mostra um típico bully, que faz a vida negra à personagem homossexual, sem nos mostrar o quão asqueroso e emocionalmente distante é o pai dele. Estas sim, são peripécias reais. É esta perspectiva pouco abordada, mas tão realista, que faz com que as histórias pareçam frescas. Juntamente como uma realização de tal qualidade que faz a série de TV parecer um filme, destaca-se facilmente dos seus antepassados, cimentando um bom lugar nesta indústria.
Como mencionei, a TV está saturada de drama adolescente; nunca nada chega onde deve chegar, fica sempre aquém do esperado. Sendo o público-alvo adolescentes e jovens adultos, é estranho como estas séries costumam ser escritas por alguém que claramente tem pouco conhecimento do mundo que é a pós-puberdade. Não foi o caso aqui. É supreendente esta qualidade ser proveniente da criadora e escritora Laurie Nunn, cujo currículo é praticamente inexistente.
Quase perfeita, "Sex Education" faz-nos aprender algo de novo, nem que esse algo seja simplesmente falar de sexo de um modo descontraído, pois a desinformação apenas leva a situações embaraçosas.





Comentários
Enviar um comentário