Tenho uma relação de amor/ódio com este episódio. Além de ser grande fã de "Black Mirror", sou um fã incondicional de Nine Inch Nails. Assim que ouvi a cover de "Head Like a Hole" na grande voz de Miley Cyrus, fiquei com uma expectativa alta. Ao longo do episódio, essa expectativa foi tanto satisfeita, como destruída, inúmeras vezes. Houve muitas coisas que funcionaram, e tantas outras que fizeram as redes sociais renegar este episódio como batata frita aquecida no microondas. Eu tentei mesmo muito gostar deste capítulo, mas é melhor começar a explicar.
"Rachel, Jack and Ashley Too" trata de uma história colectiva entre Rachel (Angourie Rice), Jack (Madison Davenport), e Ashley O (Miley Cyrus). As primeiras duas são irmãs que acabaram de se mudar com o seu pai insosso para uma cidade nova. Depois da morte inesperada da sua mãe, a sua falta é evidenciada pelo afastamento entre as filhas. Jack afirma-se pela música pesada que ouve, a roupa pesada que veste, e o baixo pesado que toca; enquanto que Rachel vive a sua vida de arco-íris e unicórnios vidrada na artista pop do momento: Ashley O. A artista anuncia o seu novo produto: uma semi-réplica de si mesma na forma de uma boneca automatizada, que interage com pessoas.
Grande parte do episódio é passada a mostrar-nos como a boneca afecta a vida de Rachel negativamente, abrindo ainda mais a fenda emocional que separa as duas irmãs. É uma história pouco original, na medida em que a situação humilhante e juvenil que Rachel passa por ir na conversa da boneca, é apenas algo que já foi feito inúmeras vezes, mas desta vez com um toque futurista. Toque esse que não parece ser suficiente para destacar a dinâmica desta família.
Concorrente à história das irmãs, Ashley também anda a passar por dificuldades. Desgostada com a sua carreira musical, vemos a sua fragilidade na sua casa gigante, ao nascer do sol, enquanto ela toca "Right Where it Belongs" de Nine Inch Nails, sendo na ficção da série de sua autoria. São letras drasticamente diferentes das que ela está habituada a cantar nos seus concertos, e é aqui que podemos ver o paralelo da depressão de Ashley (cuja história não é assim tão diferente da actriz) com a de Trent Reznor, escritor da canção, ambos com pensamentos suicidas em mente Parte desta metragem foi, de facto, inspirada por alguns dos temas que Reznor fala na sua música, em particular o de uma era em que as agências discográficas apenas se preocupam em vomitar cada vez mais música barata, muitas vezes à custa da saúde mental do artista.
A tia de Ashley, Catherine (Susan Pourfar) é a personificação desta empresa sem alma, enriquecendo às custas da sobrinha, com quem vive. Quando Ashley descobre que anda a ser drogada pela tia (por absolutamente nenhuma razão aparente sem ser, assumidamente, ansiedade), ela ameaça processá-la. Catherine, um passo à frente, consegue metê-la num coma, e tirar proveito da situação, intensificando o abuso que artistas sofrem no mundo real.
Depois de um paço dolorosamente lento, as irmãs decidem salvar Ashley, e aqui a história parece que vai por água abaixo. Enquanto entendo que não há muitos sítios lógicos onde ela possa ir, creio que os escritores se apressaram um pouco a fazê-lo. Uma perseguição de carro ao som de outra cover pop de Nine Inch Nails fez com que o terceiro acto parecesse uma cena saída de um desenho animado do Nickelodeon. A comédia fraca nesta parte não foi bem contrastada com a seriedade estabelecida ao longo da hora. Além de que a tecnologia usada durante o coma de Ashley foi apenas levemente explicada, e desnecessariamente exagerada, em comparação com outros episódios da antologia.
Sem grandes actuações, tirando a de Miley Cyrus, e sem grandes deixas visuais, o alto custo de produção (até foi feito um videoclipe oficial para uma das canções) foi esbanjado numa história mal executada. "Black Mirror" fecha a sua quinta temporada com conteúdo substancial, mas mal aproveitado. Amarguradamente pondero se esta inconsistência será um sinal, numa longa lista de sinais, de que esta série já deu o que tinha a dar.
Fotos: IMDB.com/Netflix/Videoclipe oficial de "On a Roll"





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