Netflix decidiu cancelar a obra-prima que é "Bojack Horseman". O criador, Raphael Bob-Waksberg, disse que não foi uma decisão tomada de leve, pois acredita que a série podia ter durado mais umas temporadas. Argumento contra, visto que o que não falta na televisão, são programas que já deviam ter acabado há muito, e tantos outros que foram por água abaixo nas últimas temporadas por causa de produtores megalómanos. Com isto em mente, os escritores decidiram dividir os últimos episódios em duas partes, e a primeira parece focar-se em começar a dar os primeiros passos para dar às personagens, não o final mais feliz, mas certamente o mais lógico.
"Bojack" sempre se preocupou em fazer um bom balanço entre comédia forte, tangente a surrealista, e seriedade intensa. Este padrão continuou em grande força, ainda para mais agora que se vê a meta no horizonte. Bojack (Will Arnett) entra na reabilitação, e as coisas parecem melhorar para ele. Não é um caminho fácil, mas é um mais saudável. Dado a vícios como ele é, chega a entrar em pânico quando o seu terapeuta considera dar-lhe alta. Confortável e receoso pelo mundo lá fora, acaba até a estender a sua estadia.
Lembro-me de como a sexta temporada de "House" pareceu ter sido cozinhada em banho-maria, por terem a sua personagem principal finalmente sóbria ao longo de tantos anos, mas não foi de todo o caso aqui. Apesar do nosso herói equino finalmente ter algo parecido com uma paz de espírito, vemos o veneno dele a escapar pelas fendas de vez em quando. É uma situação com a qual imensa gente se pode identificar, especialmente pessoas que lidam com esta esfera não tão bonita da sociedade. Isto culmina na eventual espiral em que o seu terapeuta entra, quando Bojack, sem querer, o faz ficar agarrado à bebida de novo. Tanta coisa na vida dele foi feita da mesma maneira que desta vez vemos uma mudança muito invulgar: Bojack quer ajudá-lo. É a primeira vez que o vemos a ter qualquer tipo de empatia que não pela irmã, que não tenha sido em volta de uma transacção. Desta vez é genuíno - ele reconheceu o mal que fez. Este primeiro passo para ser a tão desejada "boa pessoa" que ele quer ser é fulcral no resto da temporada. Ele decide que não quer ser mais miserável, e vai dar uma volta pelo país para rever as poucas pessoas que ama neste mundo, que ainda lhe restam.
Não é só a nossa personagem titular que passa por caminhos difíceis para ter o que quer. Esta temporada é uma de mudança drástica para as cinco principais. Entre o episódio de Princess Carolyn (Amy Sedaris), com a ansiedade materna estrondosamente bem representada, e o de Diane (Alison Brie), com o seu medo de compromisso ao encontrar alguém que a aceita, estamos repletos de obstáculos para estas personagens com quem nos temos vindo a identificar durante os últimos anos.
Estas mudanças finais não foram delineadas com a felicidade cliché em mente, mas sim com o que estas personagens recebem de acordo com o que têm feito. As suas histórias são retratadas com uns risos leves e uma consistência tremenda, sempre fazendo justiça às suas motivações, e sem esquecer o passado. Vemos também novas faces destas personagens, conferindo mais profundidade a cada uma delas, a escrita deslumbrante sempre fazendo com que cada episódio se entranhe facilmente na pele.
No último episódio a audiência recebe uma surpresa especial: nenhuma das cinco personagens principais aparece. Mostrando que os escritores conhecem os seus fãs, deram-nos um episódio centrado em todas as outras pessoas que se cruzaram com BJ e companhia. Não é preciso cruzar personagens terciárias às principais para vermos as coisas das perspectivas delas. É uma boa maneira de fechar a primeira parte, em vez de se apressarem a fazer algo às três pancadas, que fosse desiludir a leal base de fãs que têm. A despedida tem de ser feita com todos, e é impressionante como a condensação delas resultou tão bem aqui.
Mas nem tudo são boas notícias. Nesta última meia-hora vemos pessoas prestes a desfazerem todo o melhoramento que Bojack se esforçou a fazer. O seu passado rapidamente está a vir ao de cima: tanto o incidente em New Mexico, como a noite do planetário. Relembrando-nos que este homem fez o que fez, são postas umas boas questões, uma das quais provavelmente nunca conseguiremos responder com certeza: será que Bojack merece ser feliz? É algo que ele próprio se tem vindo a questionar durante toda a vida, mas que agora simplesmente deixou de perguntar. É também intrigante saber como a audiência quer ver o desfecho desta viagem, e mais intrigante será ainda o que irão realmente fazer no futuro.
Os últimos episódios estarão disponíveis a 31 de Janeiro do próximo ano. Até lá, apenas podemos esperar ansiosos para ver finalmente como um novo e melhorado Bojack irá lidar com o seu passado tornar-se, suponho eu, incontrolavelmente público. A este ponto é impossível prever o final, mas afinal de contas, é exactamente isso que nos prendeu a isto há seis anos atrás.
Fotos: IMDB.com/Netflix





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