Se há coisa irrealista, são as séries de drama adolescentes dos dias de hoje. Todas parecem durar no mínimo umas seis temporadas, apesar da audiência cada vez mais pequena e as pontuações a caírem em pique. É esbanjada uma fortuna nestas mediocridades; apenas temos de olhar para o arsenal de melodramas da CW. Dito isto, é refrescante ver uma história a retratar fielmente o que é ser-se jovem nos dias de hoje, ainda para mais se essa história é tão deslumbrante quanto a nova aposta da HBO.
Sem grande alarido, "Euphoria" estreou-se sorrateiramente no Verão. No seu centro temos Rue (Zendaya), uma simples rapariga que vai começar o seu ano escolar fresquinha da reabilitação, depois de uma overdose, a narrar-nos a sua vida e as dos seus pares. Em cada episódio começamos com flashbacks para as vidas de cada personagem. É uma maneira de entendermos o que levou a estes miúdos actuarem como actuam. Não é que desculpe os seus comportamentos erráticos, mas a justificação certamente cria empatia. É uma maneira simples de fazer-nos sentir mais próximos a eles todos.
Não temos necessariamente de nos identificar, mas no entanto, todos conhecemos alguém como estas personagens: a rapariga que usa sexo para se afirmar, o rapaz neo-psicopata, as infâncias disfuncionais, a dessensibilização, a dormência, etc. A série trata imenso da fragilidade dos adolescentes, e como estes podem ser facilmente quebrados, dadas as circunstâncias. Doenças mentais e mortes próximas não são assuntos nos quais se devam tocar ao de leve; algumas destas histórias mostram as consequências de quando tal acontece. Um diagnóstico errado de uma situação pode ter consequências a longo prazo, e isso é algo que as pessoas na vida real tendem a esquecer-se.
Rue rapidamente conhece Jules (Hunter Schafer), que rapidamente se torna sua amiga. Não é segredo para absolutamente ninguém que Jules está em transição sexual. Mesmo assim, também não é feito grande alarido. Todas as instâncias em que a orientação sexual ou identidade de género de alguma personagem é posta em foco, não é feita qualquer menção directa. E é a melhor maneira de nos apresentar a assuntos aos quais não estamos habituados - é ao dizer "esta é Jules. É uma rapariga que acabou de chegar à cidade. A Jules e a Rue tornam-se amigas." Não é preciso inundar o argumento com etiquetas, palavras caras, e exposição desnecessária. O modo devido para explicar o que é uma pessoa transsexual, é mostrar a vida dela, e mostrar que a sua identidade sexual não é a única coisa que a define. A Jules é uma pessoa tal como todos nós, e é uma lufada de ar fresco ao mostrá-la como tal.
Visto que tivemos a personagem principal na reabilitação, dá para perceber rapidamente que o uso recreativo de drogas faz parte do dia-a-dia destes miúdos. No entanto, o seu uso não é tão embelezado como, por exemplo, "Skins" o fizeram. À superfície, vemo-los a divertirem-se, de facto, mas não tardam a mostrar-nos as consequências do uso frequente. Mas a série não faz questão de apenas levar-nos numa viagem de histórias para servirem de lição.
Além de fazer isso, por via dos flashbacks já mencionados, ensina-nos que eles todos têm as suas razões. Ao invés de fazerem das drogas um problema nas suas vidas, explicam-nos que o problema, na verdade, são eles. As drogas (entre outros vícios representados) são um sintoma do problema - é a maneira moderna de lidar com pais distantes e incertezas existenciais, tão descritivas do que é ser-se adolescente numa sociedade moderna.
A banda sonora original de Labrinth, e a cinematografia visualmente orgásmica, são cerejas no topo do bolo. Com especial menção para o episódio da feira popular, não bastava termos um argumento deslumbrante, como também é criado um ambiente paisagístico, tangente a algo tirado de um sonho. É verdade que a série foi adaptada da original Israelita, com o mesmo nome. Mas Sam Levinson (escritor, produtor e realizador) elevou-a a um plano de existência que até agora não tinha sido feito na esfera do melodrama adolescente. Ternamente potente, os fãs cada vez maiores em número esperam o próximo capítulo pacientemente.





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