Game of Thrones | Temporada 8 - ★ 5,5/10

A série televisiva mais vista no mundo chegou ao seu final inevitável. Com uma história substancial, um mundo construído ao mais pequeno detalhe, e as histórias humanas contrapostas num plano de fantasia, chegamos a esta última temporada com expectativas altas. Apesar dos escassos seis episódios, os custos de produção astronómicos anunciados criaram um furor imenso.

No entanto, a ambição não recompensou: quase unanimemente foi considerada uma temporada bastante fraca. As razões para tal, contudo, foram bastante divididas. Passo a explicar, sem querer dar demasiada atenção às linhas narrativas mais pequenas, se não chego até a ter suficiente para escrever um livro tão longo como os de George R. R. Martin.


Depois de quase dois anos de espera, encontramos a maioria das personagens no Norte do país. Em Winterfell, Daenerys e Jon (Emilia Clarke e Kit Harington) fortificam-se em espera da Longa Noite, profetizada desde o início da série. Os dois primeiros episódios focam-se na consolidação destas forças, deixando, então, o terceiro para o que seria o evento mais climático da série. Temos momentos ternos, e o fechar de várias narrativas, em antecipação ao que promete ser uma noite repleta de morte.

Verdade seja dita, conseguiram dar-nos das reuniões mais emocionais e esperados da série inteira, se bem que algumas interacções podiam ter sido melhor executadas. Por exemplo, apesar da consumação da relação de Arya e Gendry (Maisie Williams e Joe Dempsie) ter sido lógica de se fazer, não havia grande necessidade de nudez. O segundo episódio serve para nos mostrar todas as chamadas "death flags" à grande maioria das pessoas ali, de modo a fazer-nos acreditar que ninguém está a salvo, e de que a contagem de corpos vai ser alta.


A grande maioria das personagens que sobreviveram até agora encontram-se nesta batalha épica, realizada por Miguel Sapochnik, autor de "Hardhome" e "Battle of Bastards". Ao final do dia, tem de se admitir que a concepção e construção dos cenários para o episódio foi um trabalho digno de titãs, desde a construção e consequente destruição da fortificação, até aos efeitos especiais e coreografias. Em contraste com "Battle of Bastards", que demorou 25 dias apenas para ser filmado, "The Long Night" demorou 55 dias, em temperaturas negativas, e sem sol. A coordenação foi impecável, mas estaria a mentir se dissesse que o episódio mais fulcral de toda a série (de todo o canal até!) não tivesse deixado a desejar. Além de demasiadas personagens terem sobrevivido milagrosamente - e todos sabemos que não existem milagres neste mundo, por mais magia que exista - houve um paço tanto ou quanto inconstante durante a batalha.

Entendo o desejo de misturar acção, terror e suspense, de um modo que não cause à audiência fatiga de batalha. No entanto, as constantes paragens e consequentes sustos não pareceram resultar a favor da história. Arya acaba a ser quem destrói o Rei da Noite, o que não foi bem recebido por muitos fãs, apesar de ter sido dos melhores momentos televisivos das últimas décadas. Foi um bom desfecho para a narrativa dela, com todo o treino e trauma que recebeu no outro continente, não obstante certos percalços narrativos em temporadas passadas. No entanto acabou a tirar peso da ressurreição de Jon Snow e à profecia do "Príncipe que foi Prometido", esse futuro tantas vezes mencionado pelas sacerdotisas vermelhas. Foi uma via natural a seguir, mas em detrimento de várias outras melhores.


Nos últimos três episódios as inconsistências multiplicaram-se exponencialmente. Apesar da Longa Noite ter sido travada, ainda há a questão do trono. As forças do Norte marcham para Sul aos poucos, com fortes perdas na primeira onda; em particular, Dany perde o seu segundo dragão, e Missandei, sua conselheira e melhor amiga. Pouco depois destas mortes inesperadas, é-lhe aconselhado que um ataque directo resultará em mais perdas, visto que as forças presentes destruíram-lhe a frota e um dos filhos. Dany decide não fazer caso, e por nenhuma razão aparente, consegue destruir a cidade de King's Landing e a frota Greyjoy/Lannister com pouco esforço. Nem querendo mencionar a falta de lógica nos níveis de poder destas duas facções, devo mencionar que é uma estratégia indecente, visto que havia maneiras mais eficazes e lógicas de matar Cersei (Lena Headey, no papel da vida, em que passa 90% do seu tempo de antena numa varanda). Uma dessas maneiras seria, por exemplo, agarrar na Arya, numa cara qualquer de alguém que morreu em Winterfell, usar o Davos - o suposto melhor contrabandista do mundo - para meter a Arya dentro da cidade, e portanto matar a Cersei. Fácil e rápido, mas não causa o mesmo impacto que construir uma cidade inteira em Belfast e depois destruí-la, em explosões fantásticas às quais o Michael Bay nem chega aos calcanhares.

Dany dizima a capital, apesar da rendição desta. O problema aqui não é bem o desenrolar da loucura extremista de Dany, mas mais o quão apressado foi o desenvolvimento desta nova faceta. Para uma pessoa que há um ano punha a sua vida em jogo para defender uma cidade estrangeira que nada queria ter a ver com ela, o modo em como ela decidiu arder tudo à sua frente foi demasiado rápido. Não obstante, os números das suas forças oscilavam frequentemente, como por exemplo, a aparição de metade dos Dothraki e Unsullied, depois dos confrontos em Winterfell. Talvez a decisão de encurtar a temporada para seis episódios, em vez de os habituais dez, tenha sido prejudicial ao paço geral que ditou a rapidez da acção e do desenvolvimento da personagens, bem como a maneira com que a informação lhes era despejada em cima, sem terem tempo para a assimilar.


No final, Bran é eleito Rei. Provavelmente a pessoa cuja viagem foi a mais desnecessária dos últimos oito anos, pois apesar de ter o conhecimento do mundo na sua mente, nada fez com ele. Mas esta não foi a única coisa esquecida pelos agora infames David Benioff e D. B. Weiss. Foram demasiados os esquecimentos, e demasiada a velocidade com que levaram estas personagens aos seus finais. Os actores, coitados, fizeram o melhor que puderam com o que lhes foi dado.

Para um programa com tanta aderência, com tanto valor de produção, com tantas pessoas dedicadas e criativas na equipa, com tanto tempo para escrever e rescrever este último capítulo, com elenco estrondoso, não percebo como eles acharam que isto seria o melhor final. Foi uma má história, com um mau final, contada e executada da melhor maneira que conseguiram. Uma desilusão tão grande quanto a expectativa geral.




Fotos: IMDB.com/HBO








Comentários