God's Own Country - ★ 8/10

"God's Own Country" não é propriamente o filme mais recente, mas encontrei-o arbitrariamente numa fase em que me estava a forçar a ver filmes menos conhecidos. O mundo está sobrelotado de blockbusters, quer eles bons, maus, quer eles dolorosamente medíocres. Muita coisa com baixos custos de produção e pouca publicidade acaba por ser perdida no meio disto tudo; muitas vezes coisas essas que haviam de ter merecido uma presença maior nos cinemas. Por estas razões não vejo problema algum em escrever sobre um bom filme de há uns anos atrás.


Francis Lee estreou-se com esta história terna entre dois jovens adultos, na ruralidade de Yorkshire, na Inglaterra. Johnny (Josh O'Connor) vive uma vida mundana com o seu pai débil e avó ansiosa. Trata da quinta da família contrariado, enquanto esbanja o seu pouco tempo livre em álcool e sexo casual. O seu pai, Martin (Ian Hart), decide contratar Gheorghe (Alec Secăreanu), um imigrante romeno, durante uns tempos. Fá-lo em parte porque é preciso a ajuda extra durante a temporada de tosquia, mas também porque o seu filho se anda a desleixar.

Quando os dois vão acampar para uma zona isolada da propriedade para tratarem dos animais, Gheorghe bate o pé quando Johnny o trata preconceituosamente. Apesar disto, os dois acabam a ter relações, com o Johnny a exibir a sua habitual postura dominante e intensa, e Gheorghe a reprimi-la e a mostrar-lhe ternura.


É engraçado de se ver dois rapazes com passados diferentes e, ainda assim, tão semelhantes. Ambos provenientes de um contexto rural, Gheorghe teve uma vida mais difícil, dada a sua emigração do seu país. Contudo, é ele que exibe a personalidade mais calma e contida. É um contraste peculiar, mas que funciona perfeitamente. Uma pessoa simples, contraposta com um ambiente visualmente leve, e um trabalho longo mas claro. Menos é quase sempre mais. Apesar de ter o Inglês fluente, pouco fala - palavras nem sempre são necessárias, quando os gestos falam mais alto: o fazer comida ao Johnny, o ressuscitar e tratar de um cordeiro, até às simples carícias arbitrárias. Além de que não se esperaria ver um emigrante a abrir-se tão facilmente a um nativo enraivecido por uma vida tanto ou quanto desperdiçada.

A fotografia rural e paisagística ajuda a evidenciar a isolação que Gheorghe e Johnny sentem, ambos por razões diferentes, mas razões essas que os aproximam. Dois homens no meio de nenhures, com um frio de gelar os ossos, a fazer trabalho imperdoável, com pouca luz e pouco que fazer além do laborar, a audiência consegue apreciar, e se calhar simpatizar, com os heróis um tanto perdidos. A falta de música deixa também o foco nos sons naturais, ecoando o ambiente em que as personagens se encontram.


Johnny não tem o melhor pai, verdade seja dita. Amargurado por uma era passada, debilitado por um AVC, compreensivelmente chateado com o universo. Despeja no filho que tem problemas próprios e ambos acabam por chocar imenso, com a avó a tentar manter a neutralidade. Um panorama muitas vezes real, especialmente com homens orgulhosos endurecidos pelo tempo e por circunstâncias fora do controle deles.

Lee conseguiu fazer um retrato perfeito de uma relação danificada, não pela homossexualidade do filho (esta sendo um pouco não escondida), mas sim pelas perspectivas diferentes separadas pelos anos. É um choque de gerações que os atormenta, e como tal, um choque de técnicas práticas e filosofias. Gheorghe actua quase como a ponte entre estas vias divergentes, percebendo a importância dos modos passados, mas não negando o que precisa de ser melhorado. Sem querer contar mais sobre o que acontece, pode-se afirmar que é uma história, não só sobre dois jovens a encontrarem-se, mas também sobre a relação entre um pai e o seu filho.


Não é um filme com muita acção, não é uma comédia, não é um exagero na vida que levam os agricultores hoje em dia. É apenas uma história, simples e directa. Deslumbrantemente visual, e sem o mais longo diálogo do mundo, é uma apreciação por uma cultura muitas vezes esquecida, mas tão importante quanto isso. Com um silêncio ensurdecedor e uma simplicidade substancial, Francis Lee fez um excelente trabalho, também com a sorte de actores dedicados a darem tanto quanto dariam num filme de grande produção. Muitos realizadores e escritores poderão aprender uma coisa ou outra com esta história.





Fotos: IMDB.com









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