Joker - ★ 7,5/10

Não creio que as pessoas estavam à espera de um filme assim. Quando foi revelado que um novo filme baseado em banda-desenhada iria sair, as reacções foram quase um grunhido uníssono. Narizes torceram, devido ao historial péssimo da DC nos cinemas. Foi mais ou menos quando anunciaram a participação de Joaquín Phoenix que o optimismo cresceu. Esta expectativa neutra pode ter-se reflectido no furor que entretanto causou, mas não foi apenas por isso que ultrapassou o bilião nas bilheteiras. É que esta história clássica, é hoje mais relevante que nunca.


Liderado pela actuação animalesca e potente de Phoenix, com De Niro e Frances Conroy a apoiar nas entrelinhas, Todd Philips leva o Joker para uma via mais verosímil do que juntá-lo a capas e super-poderes. Liberto dessas correntes, encontramos um complexo Arthur Fleck: doente mental, palhaço de ofício, e cuidador da sua mãe debilitada. O filme rege-se maioritariamente pelo preconceito que existe na sociedade face a pessoas com falta de saúde mental. Arthur mostra-se desconectado com as pessoas em seu redor, sofrendo de uma condição que o faz rir-se descontroladamente em situações indecentes. Ele não quer propriamente isolar-se, mas é-lhe difícil encontrar aceitação. A sua descida até a uma forma de loucura extremista é justificada pela falta de ajuda aguda no seu dia-a-dia. Os serviços de saúde pública levaram cortes nos orçamentos, e ele fica sem a sua terapeuta que já estava bastante lotada com trabalho - tanto que ele acaba a ficar sem as suas receitas para comprimidos anti-psicóticos, que nem se chega a saber se lhe faziam mais mal do que bem.

É uma realidade demasiado frequente no mundo real: não basta os serviços de saúde física escassearem de recursos e mão-de-obra, a situação é ainda mais grave com saúde mental. Isto não desculpa comportamentos violentos, mas se a culpa não é dos que regem os orçamentos, então de quem será? O filme usa a personagem de Thomas Wayne, como um filantropo bilionário, para personificar a corrupção - uma nova cor nesta personagem que habitualmente é apresentada como sendo mais dócil aos mais desfavorecidos.


Gotham está numa descida repentina para o caos completo, com o descontentamento a aumentar rapidamente face aos que se encontram no poder. Arthur acaba por alvejar três homens que trabalham em Wall Street, quando estes lhe pontapeiam e esmurram para seu entretenimento. Quando a notícia se espalha, motins formam-se a apoiar o palhaço assassino. A comunidade caótica que se forma é uma boa reflexão da mente de Arthur, também a tornar-se num pandemónio. Ao deslumbrante som da compositora islandesa Hildur Guðnadóttir, presenciamos um retrato surreal do que acontece a uma pessoa com necessidade de estabilidade, abandonada por todos.

A dado ponto, temos dois agentes policiais a perseguir Arthur no meio das manifestações e dos descontentes com máscaras de palhaço. Entrando num comboio, temos a personagem principal, literalmente, a perder-se cada vez mais fundo nas carruagens, com os agentes atrás dele, mas falhando face aos manifestantes que os param e lutam contra eles, imitando eficazmente o quanto Arthur se está a perder na sua loucura e a destruir todas as algemas que estavam a mantê-la em dormência. Até a sua caracterização torna-se exponencialmente mais condensada e arranjada, à medida que ele aceita a desordem dentro de si. É criada uma certa empatia entre o homem instável no ecrã, e a audiência a assistir. É habitual um doente mental sabotar o mundo à sua volta, de modo a criar uma realidade que assente à sua mentalidade. É a maneira deles conseguirem adaptar o mundo a si mesmos, de modo a sentirem-se mais normais, já que o mundo recusa-se a adaptar a eles. A estrutura do filme e da narrativa reflecte perfeitamente o seu conteúdo.


Arthur termina a sua metamorfose para o Joker com um público emergente a aplaudir o comediante, sangue vermelho na sua face branca, com o primeiro sorriso honesto que ele consegue esboçar. Finalmente, consegue a aceitação que sempre quis, ao livrar-se de tudo o que prendia a sua instabilidade, e criando um mundo instável que lhe assente.

O filme faz repensar as instâncias nas nossas vidas em que devíamos ter prestado mais atenção aos que se perdem na espiral labiríntica que é a mente humana. Embora esta história tenha um quê de exagero para efeito dramático, face à instabilidade mental, social, e política que se sente nos dias de hoje, é difícil de acreditar que algo semelhante a isto não possa acontecer. Uma história de cautela, brilhantemente contada.





Fotos: IMDB.com/Warner Bros. Pictures








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