"Pose" não é só relevante nos dias correntes, é necessário. É necessário contar estas histórias, destas pessoas esquecidas pela sociedade. As comunidades marginalizadas estão a crescer em número, e a sua marginalização dá-se em parte pela falta de educação do resto do mundo. O problema não é que estas minorias não tenham voz, mas mais que não tenham alguém que lhes dê a plataforma correcta para elas se expressarem. No ano passado, a FX decidiu arriscar a mostrar a história dessas minorias, e tem sido um sucesso.
Dito isto tudo, não creio que o Ryan Murphy deveria continuar a ser o capitão deste barco. O seu historial fala por si só: American Horror Story, Nip/Tuck, Glee, 9-1-1... Todas séries com uma premissa fantástica, e um elenco capaz de mover montanhas. Mas também todas elas com gravíssimos problemas de inconsistências. Pose não se está a revelar diferente.
2 anos depois dos eventos da temporada passada, mas mais parecendo seis meses (começamos bem), encontramos Blanca (Mj Rodriguez) e co. em 1990. A pandemia do vírus HIV/SIDA afecta a comunidade homossexual mais que nunca. As suas vidas são passadas maioritariamente em manifestações da emblemática "Act Up", danças de salão, e funerais inesperados de amigos e amados. Madonna lançou "Vogue" e o salão está cada vez mais nas bocas das pessoas, com a comunidade a encontrar trabalho no mundo da dança. No entanto, continuamos a ver a sua marginalização de outras maneiras.
Por exemplo, Blanca apenas encontra obstáculos enquanto tenta abrir um salão; Elektra (Dominique Jackson) vê-se forçada a trabalhar como dominatrix para conseguir ter um ordenado decente; e Angel (Indya Moore) vive com receio de assumir a sua transsexualidade em detrimento do seu novo trabalho como modelo. Estas mulheres não têm as maiores habilidades do mundo, mas isso não é inteiramente culpa delas. Muitas vezes é fácil esquecer que elas não tiveram o crescimento mais vulgar, e por conseguinte, julgar as suas escolhas antecipadamente.
Com o crescimento dos filhos de Blanca, vemos as suas relações a mudarem. As suas ambições continuam constantes, mas as dúvidas e receios prevalecem. Novos romances florescem com base na solidão, entorpecida por incompreensão maciça. Mães vêem-se com o ninho vazio e as doenças sempre presentes pesam na mente das pessoas. É uma lufada de ar fresco ver uma série com cinco mulheres de cor transsexuais no centro, com outros quatro homens de cor. Afinal de contas, se queremos pousar os olhos no passado, para não o repetir, necessitamos de ver o passado como ele era: com as pessoas brancas da altura a serem racistas e homofóbicas.
Voltando a Murphy, apesar das personagens terem a devida profundidade, a narrativa não saciou. Parece que a única razão para avançar 2 anos foi para mencionar a Madonna a cada oportunidade que tinham. Sim, ela teve influência nos salões do início dos anos 90, mas então porque é que não vimos estas personagens mais crescidas? Começaram a temporada exactamente no mesmo sítio onde estavam: Damon tinha acabado de chegar da tour de dança, e Elektra ainda estava a viver com Blanca, ambos sem qualquer explicação para tal. Além de que é impossível ver uma série de Murphy sem um episódio com números musicais, por actores que mal sabem cantar, como se ele não tivesse tido uma série durante seis anos para despejar toda esta energia.
Demasiados episódios parecem cápsulas. No episódio musical pouco se passou que levasse a história para a frente - podia ter sido retirado que ninguém repararia. O penúltimo passado na praia, que conseguiu trazer mudanças um pouco significativas para duas personagens, foi completamente esquecido no final, quando decidiram avançar quase outro ano no futuro.
Murphy pega numa história interessante e apelativa, mas nunca se consegue decidir na maneira que quer contá-la. Ora quer as personagens a serem inimigas, ora são família. Ora quer drama sério e realista, ora quer comédia, ora quer canções. Ora quer matar alguém, ora quer essa pessoa em todos os episódios. O resultado é uma confusão imensa, com trabalho de câmara medíocre, e música insípida.
Sem saber o que esperar, Pose termina o capítulo desapontando um pouco. Num emaranhando de linhas narrativas de alguém que escreve gananciosamente, foi uma viagem boa. No entanto, podia ter sido tão mais. Temo pela terceira temporada que estreará para o ano, pois apesar dos actores terem sido a grande razão para que esta parte da história tenha funcionado, não creio que seja o suficiente para aguentar uma terceira vez.
Fotos: IMDB.com/FX Networks





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