The Boys | Temporada 1 - ★ 6,5/10

Este mundo está saturado de super-heróis. Temos capas a sair pelas costuras e parece que foram oferecidos a todos os actores de jeito um cheque bem gordo, pois todos agora têm um alter-ego. No meio destes inúmeros blockbusters é de se esperar que haja um ou outro que esteja aquém do esperado. Francamente, há muito lixo nos cinemas e nas TV's hoje em dia, e isto não é surpresa para ninguém. Quantidade nunca significou qualidade, ainda para mais quando todas as histórias são essencialmente iguais. Por termos mais do mesmo, criou-se uma lacuna: e se os super-heróis fossem más pessoas? E se o Super-Homem e a Mulher Maravilha, por debaixo dos adereços e dos fatos, fossem na verdade péssimas criaturas?


Foi aqui que Garth Ennis (autor de Preacher, Dredd e Hellblazer) criou "The Boys" em 2012. Eric Kripke pegou nesta novela gráfica louca e grotesca, e juntou-se com a Amazon para criarem algo mais soft para a TV Americana. Trata-se de um mundo onde os super-heróis são vistos como celebridades, com managers e RP's à medida. O foco está nos "Sete", nos quais a doce e ingénua Starlight/Annie January (Erin Moriarty) se junta - ou melhor, assina contracto - no primeiro episódio. Rapidamente é sexualmente assediada pelo seu colega The Deep/Kevin (Chace Crawford), e ficamos com uma boa ideia que estes super-heróis são capazes de ser tão asquerosos quanto meros seres humanos.

Esta falta de bússola moral é salientada pelo poder que estes têm: tal como certas celebridades no mundo real, estes heróis sentem-se imunes às leis que regem o mundo humano. Eles não se consideram humanos sequer. Em especial Homelander/John (Antony Starr) (quem nunca vemos fora do seu uniforme), que literalmente diz "que pode fazer que caralho quiser". É uma perspectiva interessante e original que Ennis e Kripke nos mostraram, uma que certamente poucas pessoas tinham considerado. Quando um ser com superpoderes decide fazer o mal, normalmente é considerado de vilão; tudo sempre muito preto e branco. Esta nova zona cinzenta é certamente uma lufada de ar fresco nas nossas televisões.


Visto que a polícia normal nada consegue fazer contra seres voadores que literalmente podem-nos derreter a cabeça com um simples olhar, foi criada uma equipa de rapazes entitulada "The Boys" que visa manter os super-heróis (ou, abreviadamente, supes) sob controlo. Hughie (Jack Quaid) é recrutado quando a sua namorada é atropelada pelo A-Train (Jessie T. Usher), mas a morte é considerada um dano colateral. Ossos do ofício, como lhe chamam. Isto enche Hughie de raiva, que é de seguida contactado por Billy Butcher (Karl Urban), ele próprio com uma vendeta contra o Homelander, o mais poderoso deles todos.


Apesar das mudanças drásticas da história da novela gráfica, os mesmo temas estão lá. Embora menos violento e mais modernizado, a actuação estrondosa e a história original compensam de modo a conferir um aspecto distinto e único. Contudo, devo argumentar que certas mudanças de género nas personagens foram desnecessárias. Embora entenda que Ennis tenha criado um mundo violentamente masculino, era mesmo essa virilidade que entrava em conflito com as personagens femininas existentes. Sem tanta testosterona na série, a mensagem perde-se um pouco - apesar de algumas mudanças terem feito um certo sentido.


Afinal de contas é um programa feito para televisões americanas, por uma companhia absolutamente nada habituada a fazê-los. Creio que se conseguissem ter vendido isto à FX, ou Showtime, ou até HBO, além de terem podido fazer as linhas da história mais fiéis ao material original, poderiam também ter tido mais liberdade criativa, ao invés de terem optado por uma via mais segura. No entanto, para uma série com custos de produção abaixo da média, fizeram um bom trabalho.




Fotos: Amazon/IMDB.com











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