Finalmente me sentei a ver esta série tão aclamada, que, com oito episódios de vinte minutos, despachou-se facilmente da minha lista. No ano passado, os feeds das redes sociais foram inundados com citações e imagens de dois adolescentes que não sabiam ao certo o que fazer da vida. Parecia perfeitamente incorporar a incerteza adolescente, tão presente nos dias de hoje. Como tal, decidi pegar na segunda temporada para ver se a adoração era merecida de novo.
Não se perdeu tempo a introduzir uma personagem principal nova. Bonnie (Naomi Ackie) levou uma vida bastante estranha, mas não tão invulgar quanto se pensa. Todo o seu trauma é enraizado numa mãe demasiado intensa e num pai distante - algo infelizmente realista. Claro que as séries têm o seu quê de exagero, e esta comédia negra não é excepção. Contudo, o exagero presente nestas situações sociais ainda assim parece extremamente familiar. Quando olhamos para trás nas nossas vidas, vemos tudo com um filtro nas nossas memórias. Quer seja por nostalgia, raiva, ou quaisquer outras emoções, nós próprios somos os nossos narradores não confiáveis.
Ao vermos uma história desenrolar duma maneira progressivamente insana, conseguimos perceber e apreciar o que levou estas personagens a agirem desta forma; não porque agimos da mesma maneira em situações semelhantes, mas porque estivemos, de facto, em situações semelhantes. Tendo as personagens a narrarem os seus pensamentos e raciocínios ajuda a criar uma empatia quase imediata.
Pouco depois encontramos Alyssa e James (Jessica Barden e Alex Lawther) um ano e qualquer coisa depois dos eventos da praia. Alyssa vai-se casar porque acha que é um passo porreiro a tomar, e James sobreviveu ao tiro que levou na barriga. Não tiveram contacto entre si durante o seu tempo separados, o que os levou a verem-se como estranhos ao início, embora cada um individualmente mais solitário que outrora. No entanto, não demoram muito a voltar a sentirem uma atracção emocional entre si, e consideram se deviam fugir às suas vidas de novo.
Desta vez, contudo, têm o peso das suas acções passadas em mente. Uma vida à Bonnie & Clyde já não parece tão glamorosa, à medida que se envelhece. Como os adolescentes emocionais que são lá no fundo, tentam encontrar respostas a perguntas que nem sabem fazer correctamente. Se já achavam que sabiam tudo o que havia para saber sobre vida, depois de uma situação traumática então ainda mais o pensam. O foco da série muda em peso para os nossos heróis, com menos personagens secundárias a fazerem-se de obstáculos à sua viagem.
Mesmo assim, é esta falta de obstáculos que sinto que não foi a melhor ideia. Parte da jornada é literalmente em círculos, a partir do momento em que eles conhecem Bonnie, que os quer matar como vingança pelo assassínio do professor da temporada passada. A estranheza verosímil está, de facto, presente, bem como os voice-overs e os sentimentos a dispararem em cada conversa.
Barden e Lawther fazem um trabalho estupendo ao caracterizarem jovens adultos a tentar aceitar o seu passado insano. Mas não é essa actuação e as mesmas deixas visuais e padrões de encontros com abusadores sexuais que faz esta temporada particularmente interessante. Aliás, nada faz esta temporada particularmente interessante. É uma boa fórmula, mas uma já vista o ano passado, apresentada desta vez com menos substância.
Creio que esta temporada apenas foi feita para os fãs terem um final mais concreto que relembrar. Hoje em dia parece que não existem histórias sem sequelas, prequelas ou spin-offs, e infelizmente, esta história, tão bem contida e belamente adaptada da banda-desenhada de Charles Forsman, não escapou a este trajecto. Podia ter acabado com o tiro na praia, que a incerteza adolescente transcendia para os corações dos fãs.
Um perfeito exemplo da estrutura a reflectir o conteúdo. Ver estas duas pessoas a encontrarem algo parecido com paz e felicidade foi bastante cativante, sim, mas devo argumentar que foi desnecessário. As pessoas têm de aprender a viver com incertezas, em vez de pedir resoluções que na vida real nem sempre aparecem. Afinal de contas, era exactamente isso que a série nos estava a ensinar.
Fotos: Netflix/IMDB.com





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