BoJack Horseman | Temporada 6, Parte 2 - ★ 9/10

Há que admitir uma coisa: é raro haver mais que uma série extraordinária no ar ao mesmo tempo. Durante a última década a Netflix, e o seu estilo de binge-watching, tomaram conta da cultura popular. Já não tínhamos de ter a experiência de esperar meio ano para saber se o Nate Fisher tinha sobrevivido em Six Feet Under. Se esta mudança de paradigma foi boa ou má, é uma crónica para outra altura.

Por enquanto, teremos de nos habituar à quantidade, em detrimento da qualidade. Felizmente, de vez em quando, quando os planetas alinham e as pessoas certas aparecem nos sítios certos, acontece magia. Dito isto, agradeço do fundo da minha alma a Raphael Bob-Waksberg por nos ter dado a oportunidade de conhecer BoJack Horseman em 2014.


Seis anos depois de o conhecermos, o cavalo antropomórfico protagonizado por Will Arnett encontra-se em Connecticut, como professor de teatro. Ele passa o seu tempo sóbrio, e a tentar conectar com a sua irmã, Hollyhock, que frequenta a mesma universidade. Estes episódios são severamente influenciados por temporadas passadas, e pouco depois do começo, vemos que Hollyhock decidiu deixar de se dar com o seu irmão, indo tão longe ao ponto de mudar de número de telemóvel. Esta decisão parece ter sido atingida duma forma muito realista, dado que no primeiro par de episódios, ela ainda estava na dúvida sobre a relação fraternal.

Não obstante, no mesmo dia, é-lhe avisado que uma história sobre o que realmente se passou na noite em que Sarah Lynn morreu, há três anos atrás, irá ser publicada. A dinâmica das personagens principais é posta em foco, com especial atenção a Amy Sedaris, cuja Princess Carolyn leva a taça neste episódio.


BoJack concede que não há nada que possa fazer se não ser honesto. Uma entrevista posterior é marcada, uma em que o nosso antiherói decide expôr as suas maldades e falácias. A recepção pública é inesperadamente boa. Contudo, uma segunda entrevista, quando mais detalhes aparecem, prova-se difícil. Um ponto de viragem na opinião da audiência sobre a personagem principal é quando BoJack admite que Sarah Lynn não morreu no planetário, mas sim no hospital, depois de ter esperado vinte minutos para chamar uma ambulância. Além deste horror, as suas relações amorosas são postas em causa, quando a entrevistadora dá a crer que em todas elas ele tinha demasiado poder sobre essas mulheres.

Uma questão pertinente vem à superfície, directamente da boca do cavalo: "Se eu não posso andar com uma mulher que tem menos poder do que eu, que mulheres me sobram?" Apesar da relevância social em tempos modernos, muitas vezes trabalhos de ficção representam estas situações duma maneira superficial, quase feita às três pancadas, para a série em si também se manter relevante. É quase forçado. Em BoJack Horseman, o assunto foi tratado duma maneira muito mais natural, com seis anos de testemunhas e inúmeras mudanças de opinião. O compasso moral de BoJack sempre foi assunto de atenção, e apenas depois disto tudo é que todos os eventos são postos em perspectiva.


Com a necessidade de acabar a série, vem também o trabalho árduo de perceber onde deixar as personagens. A insatisfação que assombra a experiência humana, omnipresente nas aventuras destas pessoas, nunca fica completamente resolvida. No entanto, as suas narrativas deixam-nos com esperança que tiveram exactamente o que merecem.

Diane (Alison Brie), especialmente, depois de se aperceber que o seu grande projecto "final" nunca iria ser realizado, e nunca iria encher o vazio dentro dela, contenta-se com uma vida mais minimalista. Sem querer revelar demasiado, ternamente vemos o seu desfecho da maneira mais lógica que poderia ter acontecido. A escrita e a estrutura num balanço perfeito, ensinando-nos que contentarmo-nos com menos nem sempre é a pior coisa que podemos fazer.


Há que haver uma especial menção ao penúltimo episódio, "The View from Halfway Down": iguais partes belo e desolador, reuniu actores passados como Lin-Manuel Miranda, Kristen Schaal, Wendie Malick, entre outros. Repleto de simbolismo e realização estupenda, por parte de Amy Winfrey (autora de "Escape from L.A.", "BoJack Kills", e "Free Churro"), o clímax fantástico abre a via a um final forte. Acabando onde começou, mas inteiramente diferente, a série despede-se avançando um ano no tempo, para um ponto em que as personagens se encontram da melhor maneira que conseguem.


É engraçado podermos aprender coisas com pessoas que nunca existiram. Com um começo instável, BoJack Horseman tornou-se numa das melhores séries de ficção da última década, se não a melhor de animação. Terrivelmente humana, esta última colecção de episódios leva-nos numa viagem assustadoramente real. Há quem diga que foi um erro cancelá-la, mas por outro lado, foi da maneira que não a extenderam desnecessariamente. Não foi curta, não foi longa. Foi o que foi, e apenas teremos de nos alegrar que a podemos acompanhar.




Fotos: IMDB.com/Netflix






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