Numa era onde a nostalgia nos é forçada pela garganta abaixo, é difícil tomar algum reboot, remake, prequela, sequela, ou spin-off, sem compará-lo às versões anteriores. Contar histórias diferentes, de personagens às quais uma pessoa se afeiçoou em criança, é um projecto repleto de obstáculos. Ainda não se viram tantos sucessos do género, em contraposição com as inúmeras re-edições que têm saído na última década. No entanto, de vez em quando encontramos um pedaço de audiovisual que se é visto com tanta frescura como quando primeiramente se apresentou.
Hoje é o caso da Toei Animation (famosa por grandes adaptações como DragonBall, Sailor Moon, e One Piece), que decidiu pegar em Digimon para celebrar o seu vigésimo aniversário, e dar um capítulo final à história original.
Cinco anos depois dos eventos da última sequela (Digimon tri.) encontramos as crianças escolhidas, na sua maioria, a acabar a universidade. É um mundo avançado socialmente, ao ponto em que existem várias crianças com digimons companheiros; os nossos heróis, neste panorama, desfrutam passivamente de ligeira fama. Contudo, esta viragem nas suas vidas traz-lhes novos obstáculos e dúvidas, características da passagem para a vida adulta. A idade da inocência verosímilmente desvanece-se aos poucos.
Taichi e Yamato tornam-se nos pontos fulcrais do filme, ao descobrirem que o tempo que têm com os seus companheiros digitais é muito mais limitado do que o que eles pensavam, -se é que eles pensaram sequer no assunto. Como as crianças sonhadoras que sempre foram, nunca impuseram a questão que teriam de deixar para trás coisas infantis, sendo elas sonhos, ambições, ou até amigos. Uma contagem decrescente aparece nos seus dispositivos, inundando-nos de ansiedade.
Ao contrário da história anterior, que na minha muito humilde opinião foi desnecessariamente longa, o filme usa animação e sequências de acção simplificadas, não características deste mundo em que cada digivolução costumava demorar um terço de um episódio. Foi uma forma que resultou a favor da contagem da história, uma lufada de ar fresco, que deixou espaço para as coisas importantes em que a audiência fiel se queria focar. Nem todas as personagens originais aparecem no meio da acção, tal como no mundo real torna-se exponencialmente difícil manter contacto constante com as pessoas que nos são próximas.
A ameaça de um novo digimon, que aparenta raptar Crianças Escolhidas à volta do mundo, é um bom veículo para apresentar a opção contrária ao crescer inevitável humano, levando-a ao extremismo de parar o tempo. Com subtis acenos a personagens passadas, também elas quase esquecidas por completo, a substância reflecte-se nos detalhes, englobando toda a experiência digital de filmes e séries passadas.
Apesar da saída de Mamoru Hosoda (realizador de outros grandes filmes da saga, bem como de The Boy and the Beast, e The Girl who Leapt Through Time), esta história preocupou-se em, além de ser um bom filme sobre o mundo Digimon, um bom filme por si só. Cada momento emocional fui cuidadosamente calculado para dar uma conclusão satisfatória a estas personagens. A história foi um adeus repentino - da aurora borealis no início, ao pôr-do-sol no final.
Foi a maior dose de realidade que alguma vez injectaram neste pedaço de ficção sobre mundos paralelos e bichos digitais. Fãs antigos e recentes, especialmente os que viram estes heróis inúmeras vezes repetidas, poderão deliciar-se com este capítulo final, ainda que tenha um travo amargo, tão verdadeiro quanto triste ele seja.
Fotos: IMDB.com/Toei Animation





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