Sem rodeios nem censuras, Michaela Cole decidiu adaptar a sua história, realizando, escrevendo, e interpretando a personagem principal. I May Destroy You prezou um enredo pesado em personagem, tratando de uma situação de abuso sexual, e a rapariga que tenta navegar no mundo depois da afronta que lhe fizeram. Não faltam histórias parecidas no mundo, menos no nosso ecrã. O que faltava era alguém que a contasse sem tabus, mas também sem medos.
Arabella demorou a perceber o que sofreu. O trauma é reprimido durante uma parte da história; os sintomas, contudo, sempre presentes. Com um pseudo-romance em Itália, é nas ruas de Londres que esta rapariga passa o seu tempo. É apenas uma jovem adulta a tentar fazer algo da vida, sem a maior motivação do mundo. Pessoas no seu círculo de amigos e conhecidos são rápidos a fazer assunções sobre o que se passou. Assim é-nos apresentada uma abundância de perspectivas diferentes, apenas discutidas entre as personagens, de modo a que nenhuma é apontada como a certa. A audiência vê-se obrigada a conectar os pontos, a ouvir as vozes, e a decidir por ela mesma o que podia ser feito para evitar tal coisa.
Esta variedade de pontos de vista não é apenas aplicada a Arabella, mas também ao que significa exactamente termos como "assédio sexual", "violação", entre outros. Outras situações mais invulgares são representadas à frente da câmara. Isto adiciona outra camada de moral e ética, pois conclusões que possam ser tiradas sobre a agressão de Arabella, podem não se aplicar aos das outras personagens. Questões pertinentes nos dias de hoje, e que deviam já as ter sido há séculos atrás, são nesta série postas em causa, na luz mais realista possível.
A realidade referida não é só encontrada nas situações em foco. Todos os detalhes sobre a experiência sexual humana são representados. Não são sempre os mais bonitos, mas não foi essa a preocupação de Cole e Sam Miller (o co-realizador). Qualquer pessoa pode fazer um filme pornográfico: não tem de se preocupar com conversa, com menstruação, com disfunção eréctil... até o consenso (ou falta de) começa a ser uma moda preocupante nesta esfera.
Mas fazer isso tudo é fácil. Difícil é falar no que realmente acontece, e não irá ficar menos difícil até alguém começar a explicar como as coisas naturais e comuns nem sempre são as mais belas ou prazerosas. Além disso, é ao despir estes tópicos do fácil e do superficial que se chega ao núcleo do que tem significado. E se há algo que esta série é, é verdadeira, nua, e crua.
Depois de um crime destes, obviamente Arabella vê-se forçada a lidar com depressão e ansiedade. É-lhe difícil voltar à sua vida como se nada fosse, ao seu trabalho, aos seus amigos que estavam lá com ela nessa noite. Ela própria pondera o que poderia ter feito de diferente, o que poderia ter corrido de diferente, o que ela poderá fazer de diferente doravante. É de partir o coração quando ela pergunta "eu quero tentar perceber como consigo parar de ser violada".
Porém, ela não se debruça sobre estas questões em todos os episódios. A sua tenácia leva-a a querer seguir em frente, embora nunca seja especificado se a vontade vem da normalização que a sociedade nos incute, ou se vem do livre-arbítrio dela. Não obstante, ainda decidindo viver a sua vida para a frente, ela continua a frequentar o bar onde começou aquela noite. Apropriadamente entitulado de "Ego Death" (Morte do ego), Arabella vai à esplanada umas vezes à semana ver se encontra o seu violador. Cabe a ela decidir o que fazer, ou o que não fazer, quando o vir.
I May Destroy You requere coragem para se ver. Requeriu o dobro dela para ser filmado. O triplo, para ser escrito. E como a série dá a crer, uma quantidade exurbitante para o sobreviver. Arabella, e por extensão Michaela, serve tanto de exemplo, como de aviso, como de manual de instruções. Extraordinariamente contado, o que perde no minimalismo, lucra na crueza.
Fotos: IMDB.com/BBC One/HBO





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