La Casa de Papel | Parte 4 - ★ 4,5/10

Era 2017 quando a notícia apareceu de que La Casa de Papel iria ter mais duas temporadas, e portanto, quatro partes. Era 2019 quando as dúvidas foram apaziguadas, dadas as altas expectativas impostas pelo estrondo que a série latina fez pelo mundo. A parte 3, embora não tivesse mantido o mesmo nível, continuou forte o suficiente para manter a audiência. Contudo, a complexidade e coordenação das histórias provaram-se demasiado difícieis de equilibrar para esta equipa de escritores, como foi salientado este ano.


Muita desta quarta parte revolve à volta de dois pontos fulcrais. Um deles é o da Nairobi (Alba Flores) ter sido baleada, e a sua equipa que a tenta salvar desesperadamente. Tokyo (Úrsula Corberó) vê-se forçada a fazer cirurgia para salvar a sua amiga. Contudo, não é uma cirurgia qualquer: Tokyo tem de retirar metade de um pulmão, com ajuda de um paquistanês ex machina, dentro do banco de Espanha, com mínimo equipamento, e zero conhecimento médico.

Depois de Nairobi sobreviver, contra todas as expectativas e probabilidades, recupera o equivalente a 2 semanas em 12 horas, e rapidamente volta à carga. Contudo, a ameaça de um dos seguranças ter-se solto, ao partir os polegares, intensifica-se quando ele encontra uma sala de pânico escondida. Apesar de ter a mão partida, ter levado com balas e cortes, e ter destruído um corredor inteiro num tiroteio, ele anda pelo banco com a saúde e energia de um jovem de 16 anos. Um jogo de gato e rato começa, que anda aos círculos durante oito dos dez episódios.


Do outro lado da história temos Lisboa (Itziar Ituño) a ser interrogada pela polícia, depois do seu falso assassínio. O seu resgate é imperativo, invocando a antiga moral de "ninguém é deixado para trás". O sentido de comunidade deste grupo é assim fortificada, criando uma empatia para com estes criminosos, pois uma das suas defesas sempre foi a opinião pública. Depois da tortura inconstitucional de um dos seus na parte do ano passado, a condenação ilegal de Lisboa acaba a lucrar em seu favor.

Contudo, é fácil de nos perdermos na garra que os seus planos inspiram, e esquecermo-nos que é impensável construir túneis em duas horas com criminosos contratados à última da hora. Houve vários veículos de narrativa parecidos, que diminuíram a verosimilhança característica que foi cuidadosamente construída durante os últimos anos.


Quando vemos uma série de ficção, quer se passe no nosso mundo ou num de fantasia, é sempre necessária uma certa suspensão da realidade à qual estamos habituados. Temos de aceitar o que está do outro lado do ecrã, quer gostemos quer não, para podermos apreciar decentemente. No entanto, uma história ganha pelo realismo que consegue agarrar. Como em Game of Thrones, quando Dany viajou 2400 quilómetros em cerca de seis horas: ainda que seja um mundo de fantasia e sobrenatural, algo assim seria impossível.

Em Casa de Papel, apesar dos milhões de euros à sua disposição, várias coisas são injustificáveis. Por exemplo, um dos capangas do Professor consegue ir e vir da Algéria em menos de 12 horas. Um grupo de hackers médio-orientais consegue passar um vídeo em todos os ecrãs espanhóis. Todos! Ainda seria plausível se tomassem conta de uma estação televisiva ou outra, mas todos os ecrãs sem falta? Telemóveis, billboards, televisões... Já para não falar que o aumento do grupo de criminosos para cima de vinte pessoas apenas convida mais variáveis para algo falhar.


É óbvio que a série sempre teve um quê de telenovela, que apenas convidava loucuras. Desde o início que a audiência teve que deixar passar certas incongruências, justificando-as como a única maneira que a história poderia avançar. Mas quando estas incongruências acumulam-se tanto como aconteceu este ano, torna-se exponencialmente difícil apreciar o núcleo da narrativa. Nem os habituais flashbacks adicionaram algo que levasse a narrativa para a frente.

Pondero quanto mais terei de ignorar até ficar sem substância alguma. Faltam duas partes. Talvez consigam dar a volta, antes que isto começe a fazer competição à saga Fast & Furious. Podem cantar Bella Ciao quantas vezes quiserem; não será o suficiente para salvar a história que captivou tantos.





Fotos: IMDB.com/Netflix








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