Estreado no Verão passado, com pouca distribuição e lucro, dado o panorama pandémico global, Palm Springs é uma história que consegue cruzar comédia romântica com um travo de ficção-científica. Max Barbakow (realizador) e Andy Siara (escritor) poucos créditos têm, e a cinematógrafa Quyen Tran apenas um em Unbelievable. Não era de esperar que o primeiro projecto de longa-metragem desta equipa tivesse a profundidade que teve. O canal de streaming Hulu comprou direitos de distribuição, dando-nos a oportunidade de ver isto durante a quarentena.
Nyles (Andy Samberg) e Sarah (Cristin Milioti) encontram-se num casamento longe de casa. Nyles parece ter uma atitude passiva e relaxada com a vida. Sarah, madrinha de casamento da irmã, sente-se atraída pelo seu charme e humor. Eles passam a noite a beber e a divertirem-se, nada do outro mundo, até Roy (J. K. Simmons) aparecer e tentar matar Nyles com uma flecha, e o par decide entrar numa caverna luminescente.
Chocada com os eventos repentinos, Sarah segue-os, descobrindo-se a si mesma a acordar no mesmo dia. Inicialmente incrédula, Nyles explica-lhe que cometeu o mesmo erro, e agora está preso no mesmo dia, indefinidamente. Sem maneira de sair, estes amigos improváveis decidem desfrutar da situação, e embarcam numa aventura niilista. Com a paisagem desértica californiana por detrás, eles contentam-se com uma rotina em que sabem como tudo funciona.
Quando eventos anteriores ao dia começam a revelar-se, Sarah lembra-se do seu passado com arrependimento. Desiludida consigo mesma, deixa de ver o significado na vida. É uma alegoria curiosa à propensão humana a cair em rotinas, onde tudo se torna fácil e vazio de substância. Inclusive quando Sarah pergunta a Nyles se podem morrer, Nyles diz que não, mas "que a dor, contudo, é muito real".
É uma perspectiva que neste mundo impossível pode ser transferida para o nosso com mais significados. Toda a experiência de Nyles pode ser levada como uma metáfora, para a falta de produtividade avassaladora que todos sentimos, uma vez ou outra nas nossas vidas. Isto chega ao ponto que Nyles nem se lembra há quanto tempo está preso aqui, e chega-se até a esquecer de elementos da sua vida.
Cristin Milioti faz um papel fenomenal: num cargo fácil e directo, a actriz de How I Met Your Mother está habituada a dar tudo de si, até nas cenas mais subtis e simples. Com esta representação, Sarah é da opinião oposta, chegando a usar o seu tempo aparentemente ilimitado a estudar física quântica, e a entrevistar professores, tentando encontrar uma maneira de sair dali. Nos entretantos, sentimentos românticos desenvolvem-se entre ela e o seu companheiro. Quando apresentado com a possibilidade de escapar, Nyles recusa, dando valor à confortabilidade da certeza.
Roy explica-nos o território central destas duas opiniões opostas. Ele também preso, sente que está numa situação de iguais partes perfeita e imperfeita. Está num dos melhores dias da sua vida, com a sua mulher e filhos, mas nunca irá vê-los crescer. Facilmente se percebe como, no mundo real, o desgosto humano de avançar e experienciar coisas novas, é um sentimento lógico e compreensível, mas também irrealista. O filme propõe o que a audiência já desejou pelo menos uma vez: que um dia nunca acabe.
Se um sítio está repleto de tudo o que desejamos, esse sítio será mais parecido com o paraíso, ou com o inferno? Ter o mesmo todos os dias, por melhor que essas coisas sejam, torna-se banal e gasto. Escrito belamente, Palm Springs explica como é fácil uma pessoa perder-se na rotina, como num sonho, em que mal nos lembramos como começou, e por vezes é preciso a decisão própria de sair. Foi um filme que, à superfície parecia uma coisa, mas no final tornou-se tão mais.





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