The Queen's Gambit - ★ 8/10

Scott Frank escreveu o argumento de Logan; provavelmente o melhor filme de X-Men até à data. Se ele alguma vez fosse passar para a TV, não seria de estranhar que os espectadores tivessem altas esperanças. Mesmo assim, The Queen's Gambit, com também a sua realização, e apesar de ter estreado sorrateiramente, foi um slow burn que superou as expectativas.


Anya Taylor-Joy representa Beth Harmon, uma jovem órfã nos anos 60, que é levada para um orfanato onde as crianças são controladas com tranquilizantes. Apática com a vida, é introduzida ao xadrez, com o qual rapidamente se torna obcecada. A sua mãe falecida tinha sido doutorada em matemática, implicando um potencial inato na sua filha.

No entanto, a progenitora também tinha os seus problemas mentais não-diagnosticados, bem como uma certa propensão para auto-medicação. Estes factores são evidenciados nos anos formadores de Beth, à medida que a sua obsessão com xadrez aumenta, além de um frequente vício em tranquilizantes, ao ponto de ter uma overdose no primeiro episódio, aos 9 anos de idade. Apesar destes percalços, várias pessoas começam a notar na genialidade da sua mente ao longo dos anos.


Ela é eventualmente adoptada na sua adolescência. Tímida e passiva, não fala muito com as pessoas em seu redor, preferindo a companhia do tabuleiro e dos livros sobre o mesmo. Com uma figura maternal extremamente instável, a sua segunda veste-la na sua depressão e problemas maritais. É apenas quando vê o potencial lucro que uma criança prodígio lhe pode dar que parece espevitar um pouco. Embora haja uma falta de figuras de autoridade minimamente decentes na sua vida, Beth cresce extremamente rápido em poucos anos. O seu intelecto não se rege apenas a matemática e intuição, mas também uma maturidade emocional, tangente ao espectro do que se conhece hoje em dia como autismo. Inclusive uma personagem fala em apofenia, no tema de génios de xadrez: uma condição mental em que uma pessoa vê conexões em elementos sem qualquer razão. Comenta até que "criatividade e psicose frequentemente andam de mão dada". Realisticamente, todos os génios da História já foram chamados de loucos, ao longo dos séculos.

Paul Morphy, um génio de xadrez do século XIX, é também várias vezes referenciado, pelos seus paralelos de vício e paranóia que tem com a personagem principal. Mais que isso, a primeira cena da série é uma de Beth a emergir de uma banheira, ressacada de álcool e tranquilizantes; Morphy, de facto, morreu na sua banheira. Todos estes paralelismos captam o interesse e aprofundam a imersão geral.


Existe um elemento de sexualidade bastante presente na série. Beth é constantemente desafiada por homens, e, em grupos de jogadores de xadrez, é frequentemente a única mulher. Várias outras mulheres que a admiram comentam em como nunca poderam jogar xadrez, pelo simples facto que não era esperado delas, algo relevante na década em questão. Mecanicamente, a jovem nunca dava demasiada atenção a isto, sem ser quando era usado em detrimento dela. Ela nunca quis ser uma boa jogadora de xadrez pelo seu sexo, mas sim pelo seu intelecto.

Não obstante, além da questão de género, os primeiros marcos sexuais da sua vida são directamente conectados com jogos de xadrez. Um grande exemplo é o seu jogo com um mestre de xadrez, Townes (Jacob Fortune-Lloyd), por quem ela desenvolve um aproximamento íntimo. Coincidentalmente, durante esse jogo, foi a primeira vez que ela menstruou, invulgarmente tarde aos 15 anos de idade. Este padrão é encontrado várias vezes ao longo da sua vida.


The Queen's Gambit também é um exemplo perfeito de como a estrutura de uma história deve reflectir a sua substância. Além dos títulos dos episódios seguirem a ordem de jogadas de xadrez, as suas transições suaves e fotografia genial espelham o ponto de vista de Beth, bem como o seu estado mental, e também a sua posição face às pessoas com as quais ela interage.

O seu último episódio, apropriadamente entitulado de "End Game", é um forte candidato ao melhor episódio do ano, com a sua caracterização impecável, e cenários deslumbrantemente compostos. Todos estes elementos belamente copulados com música soberba, e provavelmente a melhor performance até à data da parte de Anya Taylor-Joy, The Queen's Gambit foi uma surpresa susbtancial.




Fotos: Netflix







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