Num mundo habituadíssimo a cultura popular japonesa, a banda desenhada sul-coreana começou a ganhar tração. Recentemente, adaptações animadas têm chegado ao mundo ocidental, com particularidades que as destacam de outras produções asiáticas do género.
Tower of God, escrito há uns tempos por SIU (Slave In Utero), estreou-se este ano nos ecrãs com uma temporada de meia dúzia de episódios. Condensando um período de capítulos ligeiramente longo, este manhwa revelou que merece um lugar no nosso tempo livre.
Com mais de 450 capítulos já publicados (deva dizer-se também que são completamente grátis de se ler na aplicação WebToon), Tower of God conta-nos a história de Bam, e a sua entrada na Torre. Depois de ser encontrado numa caverna escura por uma rapariga chamada Rachel, ela ensina-lhe tudo o que sabe sobre o mundo. Anos depois eles são separados pois Rachel aparentemente foi escolhida para escalar a Torre, uma honra não concedida a todos. Escalar a Torre é uma aventura que se pode tornar fatal, mas uma vez chegando ao topo, uma pessoa recebe tudo o que sempre quis. No entanto, Bam invulgarmente abre as portas da Torre, e ele aproveita a oportunidade para encontrar Rachel, a única pessoa que alguma vez conheceu.
Testes são distribuídos nos inúmeros pisos da Torre, e são nos primeiros em que Bam faz as suas primeiras relações no mundo. A sua ingenuidade e terna inocência fazem emergir uma sensação de maravilha para com tudo o que vê. Os seus olhos brilham quando ele vê o "céu" pela primeira vez. Durante a sua jornada, as riquezas no topo pouco lhe interessam - tudo para ele são riquezas, mais do que alguma vez sonhou. Como tal, ele gravita as pessoas em seu redor, criando amizades num local nada propenso a tal.
Parte dos valores da história passam por estas relações humanas, em contraposição com o escalar da Torre. Ninguém diz que é preciso pisar outros, mas ninguém nega que isso facilita o acto. Os testes em si não se reduzem apenas a puzzles e batalhas, mas também em quem consegue fomentar espírito de equipa, num mundo imperdoável.
Numa animação estupenda, extremamente fiel ao material de origem, e prezando fluidez e minimalismo em detrimento de algo mais trabalhado, a série ganha em aproximar a estética à substância da história. Existe uma substância dentro da Torre chamada "Shinsu" que permeia tudo nela, facilmente comparável com a Força na saga Star Wars.
Esta substância, moldável com a aptitude certa, aparece muitas vezes na forma de água, implicando que o acto de subir é comparável com o de mergulhar. Inclusive certas personagens parafraseiam estas duas ideias. A noção de trair um companheiro entra muito em cena no meio disto: existem várias perspectivas e posições de moral que inferem que o acto de trair "faz o mundo cair-te em cima".
A irregularidade com que Bam entrou na Torre ameaça a sua integridade, como que um homem saído da Alegoria da Caverna. Duma maneira subtil, a história mostra-nos uma hierarquia social com a qual nem todos concordam. Segundo outros escolhidos, todos sempre viveram na Torre, quer na parte exterior, quer na interior, esta última sendo onde se situa a acção. As regras são ditadas pelo rei, e o seu poder cuidadosamente distribuído. Existe um contraste pouco falado entre as riquezas que se obtêm no topo, e o poder que uma pessoa precisa para lá chegar. Por um lado, a sanidade mental é capaz de falhar, pois a luxúria cega qualquer um.
A ignorância do jovem principal leva-o a questionar esta distribuição de poder, e é rapidamente posta de lado quando outros participantes escolhidos não partilham as mesmas dúvidas. Para eles, tudo sempre foi assim e sempre será. Aliás, a vontade de Bam não é descobrir a Torre, mas encontrar a sua amiga. Enquanto que outros não vêm mais nada à frente se não o objectivo final, Bam tem tempo para semear positividade e amizades sem esforço. Mas o que acontece se uma pessoa chega ao topo e a sua vontade é ser ele o rei, ou até destruir a Torre em si? Estas palavras ditas de passagem por uma personagem ou outra dão a crer que a quantidade de informação sobre a Torre é exurbitante, e não é dispensada a qualquer um. Dão também a crer que esta temporada é apenas uma introdução a muito mais que há-de vir.
À superfície, Tower of God parece não ter grande profundidade. Quando enfrentados com apenas treze episódios, é fácil de pô-la de lado, pensando que não vai haver muito que se lhe diga, ou que o significado se perca em si mesmo. No entanto, o factor de mistério e descoberta, que paraleliza o caminho de Bam com o do espectador, intriga a audiência perfeitamente.
As personagens e as suas personalidades são postas em foco, ao invés de explicar todos os detalhes de todas as coisas a que não estamos habituados. Este estilo de narrativa quase que nos força a aceitar este mundo novo tal como ele é. Com a próxima temporada já em produção, e uma quantidade avassaladora de capítulos por onde pegar, este animé é bem capaz de se tornar algo grandioso.





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