Depois de Ex Machina e Annihilation, Alex Garland continuou pelo caminho de ficção-científica, desta vez na forma de uma minissérie. Mais uma vez colaborado com Rob Hardy, cinematógrafo com um currículo niche mas forte, esta série foi relativamente antecipada. Apesar de não ter nada que a fizesse correr mal, dificilmente superou as expectativas impostas.
Sonoya Mizuno interpreta Lily, empregada numa empresa de tecnologia chamada Amaya, que acha suspeito o desaparecimento do seu colega e namorado Sergei. À audiência é-nos dada pouca informação de cada vez, explicando apenas que, quando enfrentado com um projecto altamente secreto da empresa, Sergei tentou copiá-lo para terceiros e acabou morto. Pouco nos mostram na primeira metade, sem ser eventos fulcrais das vidas das personagens, e a projecção da Crucificação, implicando que Devs, o projecto, consegue ver no passado. Mas quando um dos técnicos usa um algoritmo com base em teoria de multiverso, Forest (Nick Offerman), o magnata da empresa, despedo-o imediatamente. Aqui descobrimos o confronto de determinismo v. livre-arbítrio.
Garland é conhecido por conter sequências e diálogos que força a audiência a pensar por si, apenas dando-nos pontos para nós conectarmos com linhas. Desta maneira também pode deixar vários assuntos em aberto, até necessitar de os cimentar, fazendo com que o espectador esteja sempre a tentar adivinhar o passo seguinte. Além disto, também resulta em dito espectador debater dentro de si as teorias em questão, a história nunca oferecendo nenhuma como a correcta.
Conter pouca acção física numa ficção filosófica e psicológica, pode por vezes tornar-se banal - especialmente em episódios de 45 minutos a uma hora. Não seria de estranhar que uma equipa de renome enchesse o tempo morto com uma fotografia esplêndida, embelezada com simbolismo religioso e uma palete de cores orgásmica.
Contudo, esta fórmula é uma espada de duas pontas, como foi evidenciado. Noutros argumentos do autor, como em Ex Machina, os pontos de descoberta da narrativa aparecem com exponencial frequência, de modo a criar ímpeto e suspense. Neste, o padrão foi revertido, revelando imenso nos primeiros actos, mas demasiado pouco nos últimos. O resultado foi tão preocupante que no último episódio não aconteceu puro e simplesmente nada durante os primeiros quarenta minutos. Embora o final tenha sido um tanto imprevísivel, nada justifica a falta de substância. Foi como ser imerso num oceano vazio.
Embora não seja cientista, a série explica teorias básicas de uma forma minimalista, para que a audiência saiba o que está em jogo. Mas por esta mesma razão, uma dúvida é criada no desfecho narrativo. Desde a morte ignóbil de Lyndon apenas para ter uma sequência de imagens fora da caixa, às motivações inexplicadas de Stewart, há que se entender que deixar algo em aberto não implica fazer as personagens cometerem actos ilógicos. Se tinham lógica, não a explicaram, nem mostraram. Houve um esforço grande para elevar este mundo a um outro nível mais imaginativo. Mas quando se deixa demasiado à imaginação, o vago é capaz de se sobrepôr à substância. Até a explicação de Forest e Katie sobre os eventos finais pouco revelam sobre o que se passou.
Garland conseguiu apresentar um micro-cosmos de dúvidas existências, suavemente colocadas de acordo com o contexto biográfico das personagens. Embora tenha um passo que não agrade a todos, a história teve uma consistência pouco comparável a outras do mesmo género. Mesmo assim, Devs cria um mundo sem o poder de escolha, e no entanto, escolhe deixar a audiência às escuras.





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