Nancy Springer pegou na personagem de Sherlock Holmes e deu-lhe uma irmã mais nova, publicando 6 livros entre 2007 e 2010. Este ano, a Netflix decidiu adaptar o primeiro para um filme, realizado por Harry Bradbeer, autor visual de Fleabag e alguns dos melhores de Killing Eve. Apesar de adulterar a imagem da família Holmes, serve de uma reimaginação fresca.
No 16º aniversário de Enola Holmes (Millie Bobby Brown), a sua mãe (Helena Bonham Carter) desaparece misteriosamente. Criada em casa com uma educação repleta de arte, ciência e artes marciais, a jovem sente-se capaz de a encontrar, face à desaprovação dos seus irmãos. A sua maturidade revela-se enraívezada no feminismo, de uma maneira orgânica, numa sociedade Victoriana regida por homens. É de se notar que ela é apenas levada a sério quando se mascara, ou de rapaz, ou de viúva. Ao invés de comentar o seu sexo a cada oportunidade que tem, como o fazem vários filmes numa tentativa de parecerem relevantes, ela mostra como ela consegue fazer tudo o que o sexo oposto faz. E oportunidades não lhe faltavam, com o uso constante de quebrar a quarta parede para falar com a audiência, conferindo uma certa jovialidade a esta iteração. Com Londres do virar do século, excelentemente caracterizada, e técnicas narrativas caricatas, a realização no geral foi bastante bem cumprida.
Depois de fazer um amigo de classe alta, cuja vida aparenta estar em risco, Enola abandona a missão de encontrar a sua mãe. Entrelaçando estas duas aventuras, a história faz jus à mistura de linhas narrativas de Sir Arthur Conan Doyle, emblemáticas dos contos originais. Enquanto ela descobre as razões políticas por detrás da tentativa de homicídio, também descobre que a sua mãe é militante do sufrágio das mulheres, por vias duvidosas.
Estes obstáculos evidenciam uma sociedade pronta para uma reforma, e a personagem principal nela inserida, numa situação que poderia facilmente ter sido contada nos dias de hoje. Contudo, apesar da verosimilhança forte, o desfecho da sua história com a sua mãe não teve exactamente um pé na realidade. Terá de ser um elemento deixado à fantasia, pois não foi de longe o mais importante. Apenas movimentada pelo que acha que está certo, a protagonista mostra-se à frente do seu tempo, fruto de uma educação rica, perfeita para o meio que a rodeia.
A relação da jovem rapariga com os seus irmãos é colocada em foco em várias instâncias. Mycroft (Sam Claflin) é tornado num antagonista, querendo incapacitar a "criança selvagem" numa escola preparatória. No entanto, depois de acções excêntricas por parte de Enola, a sua personalidade chega ao agressivo, atravessando a barreira para completo vilão em todo o seu tempo de ecrã.
Do outro lado, Sherlock (Henry Cavill) revela-se emocional perante a situação peculiar da sua irmã. Embora ache que uma educação formal lhe faça falta, a sua empatia humaniza-o, querendo apenas o melhor para Enola. Apesar de esta relação pegar em características de Sherlock mais finais das obras de Doyle, a personagem parece ter sido reduzida apenas a isto. Por um lado confere ternura, mas ao mesmo tempo, ultrapassa o conceito de reimaginação, para completa transformação.
Enola Holmes é um filme leve, situado no ponto certo entre mistério, drama, ficção histórica, e aventura juvenil. Com uma equipa experienciada, é um exemplo que mais filmes do género deveriam seguir. Se funciona como um filme na saga de Sherlock Holmes? Nem por isso, dada as várias alterações à família. Se funciona como filme desapegado desse nome célebre? Completamente. Se necessita de mais cinco sequelas dos restantes livros? Debatível. Mas hoje em dia, tudo é possível.





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