Raised by Wolves | Temporada 1 - ★ 4,5/10

Escrita por Aaron Guzikowksi, que de créditos não tem muito de notoriedade, e realizada pelo grande Ridley Scott e o seu filho, Raised by Wolves é uma série original da HBO. Com um conceito mais ou menos interessante, e um elenco minimamente competente, a série foi enganosamente publicitada, e provou ser mais problemática do que atraente.


Depois de uma guerra longa entre ateus e religiosos ter destruído a maioria da Terra, dois androides, Father e Mother (Abubakar Salim e Amanda Collin), são enviados por ateus para o único outro planeta capaz de suportar vida. Levam consigo embriões para criarem, na esperança de expandir a quase extinta humanidade, sob uma fundação sem religião. Problemas aparecem 13 anos depois, quando a arca de humanos religiosos finalmente lá chega, e ameaça a vida pacata desta família. Depois de cinco crianças mortas, apenas restando uma, Mother sente-se ameaçada, e destrói a arca. No processo descobre que é uma antiga arma de destruição maciça, rapta cinco crianças, e mata os supostos únicos humanos que restam no Universo. Isto tudo acontece no primeiro episódio, em sequências de acção intensas e longas. Mas mesmo com uma realização excelente, pelo terceiro episódio o excitamento parece padecer, e pelo quinto é inexistente.

O planeta vazio poderia significar uma multitude de possibilidades, mas ao invés disso, o cenário torna-se banal rapidamente. Claro que de vez em quando existem discordâncias entre as personagens, que parecem ter apenas duas camadas de personalidade. No entanto, todos os obstáculos apenas fazem os protagonistas andarem em círculos, as suas vontades e lealdades mudando para trás e para a frente de um modo súbito e rápido. Apesar dos clímaxes dos episódios serem, de facto, interessantes, o seu único propósito parece ser para nos levar ao início do próximo capítulo, e não para avançar a narrativa. A maioria das situações em que as pessoas em foco se metem, parecem ser completamente evitáveis se tivessem dois dedos de testa. Apesar de errar ser humano, esperava-se melhor de veteranos de guerra, médicos, mecânicos, e cléricos.


Existe também um grande problema nas coisas que são explicadas na série. Estando num planeta novo, existe muito que explicar, tanto sobre o apocalipse passado, como o futuro da humanidade. Muitas destas coisas podem ser deixadas à imaginação, nem têm de ser explicadas de todo até mais tarde. Encontramos monolitos, visões, vozes, e ocorrências divinas, que misturam vários subgéneros de ficção-científica, e dificilmente parecem conectados. Não existem padrões nestes elementos, dando a crer que os escritores os colocaram às três pancadas.

A linha do tempo é tão desnecessariamente confusa, que parece que a foram fazendo à medida que iam filmando. Por um lado, todas estas coisas podem ser mal explicadas para expandir o lore da série. Contudo, temos de nos lembrar que uma das coisas que fez a ficção-científica sair do holofote, foi a quantidade exurbitante de informação confusa e fragmentada. Humanizar personagens que não têm muito que se lhe diga toma imenso tempo de antena, e na maioria das vezes, não dá frutos se não houver profundidade suficiente. Isto copulado com visuais que não são exactamente atraentes nos momentos dispensados nestas trivialidades, é uma receita para desastre, em que a história é quem mais perde em qualidade.


À medida que a temporada chega ao fim, vemos várias personagens a ser levadas ao limite, e a questão da sobrevivência da espécie humana começa a ser deixada para segundo plano, quando o número de seres humanos supostamente vivos começa a decrescer. Em várias instâncias, até há personagens que expressam a vontade de deixar a colónia, e ir para outra zona do astro. Desejos deste género parecem não conter a maior lógica, isto porque toda a intenção de viajar milhares de anos luz para outra galáxia, foi exactamente para dar uma oportunidade à taxa de natalidade exponencialmente pequena. Se cada um vai para seu lado, e as pessoas matam-se umas às outras indiscriminadamente, dificilmente esta situação se resolve, e ninguém durante toda a série parece ter isto em conta. Se não há sentido de comunidade, não há razão para a missão ter sido implementada sequer.


Os actores certamente fizeram o melhor com o que lhes foi dado, exceptuando se calhar Travis Fimmel, que mais uma vez faz de líder louco, e Winta McGrath, a criança com um sotaque Australiano, apesar dos pais andróides que o criaram falarem Inglês estado-unidense. Mas mesmo assim, muitos são os nomes de ficção-científica que foram perdidos no tempo, por não conseguirem apreender uma audiência. Inúmeras são as sequelas, prequelas, spin-off's, e remake's que foram canceladas depois de meia dúzia de episódios. Até Lost, que prometia tanto, fazia nós em si mesmo para tentar continuar uma história tão violentada. Era aprender com os erros de projectos passados, e esta série com uma premissa original poderia ter sido tão melhor.




Fotos: IMDB.com/HBO







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