Situado no cruzamento de imigração estado-unidense com uma geração severamente modernizada, Ramy Youssef voltou com uma segunda temporada de Ramy. Uma série inspirada nos eventos da vida deste emigrante Egípcio, Youssef escreve, realiza, e personifica o protagonista. Com histórias caricatas e, por vezes, surreais, Ramy mostra-nos uma perspectiva pouco falada, mas comparável à experiência social do Ocidente. A segunda temporada, de novo produzida pela A24 (cujos projectos financiados acabam sempre a ser de renome), foi distribuída pela Hulu, e expandiu as narrativas desta família americana.
Ramy sente-se perdido, depois da desilusão que foi visitar o seu país de origem cerca de vinte anos depois. Viciado em açúcar e pornografia, os seus amigos renovam a sua vontade de encontrar rumo na sua vida. Na sua demanda, ele encontra o sheikh Malik (Mahershala Ali), que aceita a sua corrupção e vida de pecado. Malik explica ao seu discípulo que a sua dimensão de ensinamento passa pelo Sufismo, uma forma do Islão focada, não tanto na religião organizada, mas sim no misticismo da relação de deus com o Homem. Como o jovem adulto que é, bem como o desespero e o vazio que sente, o nosso herói atira-se de cabeça, quase que enamorado com o seu novo sheikh.
A sua família, apesar de muçulmana, desaprova. Esta situação é facilmente comparável às várias vertentes do Catolicismo, com as quais uma audiência Ocidental está habituada. Se existe tensão entre mórmones e evangélicos, porque não iria entre sufistas e muçulmanos? Se existem crentes não praticantes numa religião, porque não noutra? Contudo, durante o início da sua nova educação, é deixado em aberto se a família de Ramy desaprova esta sua nova aventura pela dimensão ortodoxa que esta implica, ou se porque não acreditam que o seu filho esteja realmente sério sobre o assunto. Esta dúvida premeia a consequente acção central da série.
O confronto da educação mista também passa pelas outras personagens desta casa. Em particular a mãe de Ramy, protagonizada pela grande Hiam Abass, é confrontada quando a sua ignorância leva a melhor dela, face a um indíviduo transgénero. Movida pela vontade de votar, Maysa quer-se tornar cidadã Americana, embora há quem veja isso como uma afronta à sua cultura, apesar de a sua família ser já naturalizada, e ela apenas poder estar no país por casamento.
A sua suspensão laboral ameaça o seu teste, levando-a a perseguir o cliente transgénero. Uma certa comédia é necessária para diluir a tensão presente numa situação destas, comédia essa que não se torna exagerada, e entrelaça-se com o drama suavemente. Este humor é usado também no episódio mais constrangedor da temporada, quando os amigos de Ramy levam-no a Atlantic City, e o seu amigo debilitado lhe pede um favor sexual. Tentando manter-se limpo a olhos divinos, Ramy é constantemente testado por esta via física, não só pondo a sua fé em causa, bem como a sua ética e moral também.
Apesar de tudo, a crença parece crescer no jovem adulto. No entanto, o seu derradeiro teste aparece quando a filha do sheikh revela a sua vontade de casar com Ramy. É um evento muito falado, mas pouco explorado, pelo menos devidamente, nos dias de hoje. No Islão, não é costume dois jovens namorarem durante mais que uns meses, muito menos terem relações físicas antes da cerimónia. Em casos mais ortodoxos, este padrão também é encontrado em religiões ocidentais, conferindo uma certa verosimilhança a uma audiência que pode nem partilhar a mesma fé.
Entendendo o passado pseudo-ateísmo de Ramy, a filha do sheikh vai tão longe ao ponto de aceitar a sua passada obsessão com pornografia, e numerosas escapadas sexuais. Tendo em conta a surrealidade por vezes criada na história, o desfecho deste evento chega a um clímax lógico, e mesmo assim, surpreendente, digno se abençoar com mais episódios futuros.
Embora por vezes insuportável, a personagem de Ramy é nada menos do que realista. A suas características mais falaciosas são fruto de dúvidas constantes, algo que assombra qualquer jovem em qualquer país, sem reger-se por sexualidade, etnia, ou religião. Se há coisa que a série ensina, é que até as pessoas mais crentes também elas têm falhas. Também elas não estão livres de pecado, e são constantemente enfrentadas com desafios. Não há nada mais humano que isso, sem deixar nada perdido na tradução. Nomeada para vários prémios, este projecto pouco celebrado promete satisfazer as altas expectativas que criou.





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