Os anos oitenta foram uma das décadas mais instáveis para o Reino Unido, com três mulheres poderosas a receberem um foco extremo da media internacional. Peter Morgan adaptou esta década para a quarta temporada de The Crown, que foca-se nessas tais pessoas. Tão esperada depois das performances fortes e meticulosas do elenco novo, este capítulo é o seu último, antes de o renovarem de novo para as últimas duas partes. Com realização e fotografia ao nível de produções teatrais, esta temporada manteve o nível de renome desta dramatização das peripécias da família real Inglesa.
Com as tensões com a Irlanda a agravarem-se, o povo elege Margaret Thatcher (Gillian Anderson) como sua Primeira-Ministra. Mais ou menos pela mesma altura, a família real acomoda Diana Spencer (Emma Corrin) como possível Princesa de Gales, a ser esposada pelo Príncipe Charles (Josh O'Connor). Estas duas adições ao elenco prometem reflectir a tensão sentida pelo Reino, trazendo uma modernização necessária a uma dinastia repleta de tradicionalistas. Anderson faz uma representação assustadoramente fiel à falecida Dama de Ferro, bem capaz de ser a melhor da sua carreira, ultrapassando as grandes Lindsay Duncan e Meryl Streep, que também usaram a peruca noutras adaptações. Em cada cena que aparece, a sua presença intimidante e calculada consegue ofuscar qualquer outro, até os mais experienciados na série. O oitavo episódio, "48:1", que lida com a crise Sul-Africana na Commonwealth, será, muito provavelmente, o magnum opus da actriz.
Além do elenco de luxo, a realização e a escrita meticulosas de cada episódio são entrelaçadas de uma maneira quase poética, incitando uma imersão colossal na audiência. A cenografia e o simbolismo numa dança que nos faz esquecer os actores por detrás das máscaras. Há que se reconhecer a dificuldade de adaptar cenários e eventos tão grandiosos, sem esquecer os quarenta anos que se passaram desde então. A fantasia histórica que criaram não foi, de todo, um feito fácil; cumprido, que seja de se notar, ao mais pequeno detalhe.
Ao adaptar histórias reais ao ecrã, hão-de haver imensos obstáculos. Em particular, eventos que tenham acontecido a portas fechadas, cujas testemunhas dão relatos inconsistentes. Por causa desta falácia humana, várias ocorrências acabam por ficar fragmentadas no tempo, tendo o escritor o pior de trabalho de ter de decidir como irá contar uma história. Dar asas à creatividade pode vir tanto como uma benção, como uma maldição, esta última no sentido em que a imaginação excessiva pode afastar demasiado a narrativa da realidade. Por exemplo, a questão das primas directas da Rainha que foram institucionalizadas desde jovens. Embora estes eventos tenham acontecido, e seja do conhecimento público, a substância do que se trespassou padece, quanto mais se tenta aprofundar algo a ver com uma família tão preocupada com a imagem.
A série aqui entra na ficção histórica, tendo um membro da casa de Windsor a descobrir o sucedido, embora na realidade, não se saiba ao certo quem começou primeiramente a falar neste escândalo. Peter Morgan faz um excelente trabalho em manter a especulação ao mínimo. Isto é evidenciado ainda mais nas instâncias que mostram a instabilidade no casamento do Príncipe de Gales e da sua esposa Diana. Apesar da opinião pública do herdeiro sempre ter sido severamente baixa, em contraposição com a "Princesa do Povo", é mantida uma certa objectividade sobre o assunto. Nenhuma das partes é colocada no prisma de vilão ou de herói, os actores apenas representando personagens num casamento difícil e mal-pensado. A especulação concedida para gravar discussões sem testemunhas poderá não ter sido assim tão rebuscada, pelo contrário, havendo até a possibilidade de estar fiel ao sucedido.
Acabando no Natal de 1990, depois de Thatcher sair do governo e receber a Ordem de Mérito, é uma lástima estrondosa não nos podermos deliciar com Anderson nos próximos capítulos. Não obstante, actores novos já estão confirmados para as últimas duas temporadas, que irão encompassar cerca de vinte anos mais recentes. Com a morte de Diana e a era dos Trabalhistas no horizonte, esta temporada de The Crown criou expectativas magnânimas para os próximos dois anos. Apesar delas, o esplendor até agora mantido está mais cimentado que nunca.





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