Depois de três anos de inúmeros plot twists e imensas viagens pela afterlife, Michael Schur chega-nos com a última temporada desta comédia distópica. Primo espiritual de Parks and Recreation, The Good Place cimentou a sua posição tão facilmente no mundo do humor, que se tornou numa das grandes perdas de 2020. Apesar do seu final precoce, a série que deliciou-nos com novos actores e linhas de narrativa frescas e hilariantes, não se perdeu, e entregou episódios infalíveis.
Depois de os eventos da temporada passada, Eleanor (Kristen Bell) torna-se arquitecta e coordenadora da experiência, que agora contém um Chidi (William Jackson Harper) com amnésia. A experiência de um ano prova ser mais difícil do que os nossos heróis esperavam, quando se descobre o quanto o pessoal do Sítio Mau está a tentar influenciar os resultados. Os consultores filosóficos pouco trabalho tiveram este ano - metade dos episódios não foram testes éticos, mas sim confrontos directos com a condenação humana. No entanto, foi a temporada em que as personagens tiveram mais crescimento, algo relativamente raro numa comédia.
A série nunca foi extraordinária, apesar de ter uma premissa original; os seus pontos fortes sempre passaram pela construção de um mundo autónomo e independente do nosso. A atenção aos detalhes, misturada com um humor simples mas fresco, foi fortificada durante esta temporada, em que tinham tantas personagens principais, secundárias, e terciárias às quais tinham de dar atenção. Não é fácil coordenar demónios, humanos, uma Juíza omnipotente, e centenas de Janet's (um papel que serviu de excelente holofote para D'Arcy Carden). No entanto, depois de Brooklyn-99 e The Office Americano, mais uma vez provou ser excelente em criar micro-cosmos com personagens caricatas.
Uma escrita excelente não funciona sem actores que saibam dar-lhe vida. A entrega de one-liners, catchphrases e piadas específicas ao contexto técnico da história não pode ser feita por qualquer um. Meter a Eleanor a dizer nomes de celebridades a meio de uma conversa seria despropositado. Dito isto, a construção meticulosa passou também pelas personagens e os seus futuros, dando a cada uma um desfecho lógico de acordo com as tribulações que cada uma passou.
Depois do sucesso da experiência, o grupo original entra finalmente no Sítio Bom. Mas até no clímax da série houve desafios pequenos, em particular porque existe uma desatisfação com a "vida" levada lá. Logicamente, e parafraseando Oscar Wilde, "um Céu cheio de tudo o que queremos torna-se num Inferno". Como tal, a criação de uma porta que acaba de vez com a existência de alguém foi o passo mais realista a tomar. A partir daqui um final terno foi criado para deixar as personagens no melhor ponto que podiam da sua existência, sem esquecer as raízes e o núcleo da série.
Criando uma base fiel de fãs, The Good Place colocou várias questões da condição humana sob um microscópio. Não foi a série mais incrível que apareceu nos nossos ecrãs, mas numa era em que os canais estão repletos de histórias psicológicas, pesadas, e profundas, talvez uma história filosófica simples e minimalista ajude a diluir a seriedade com que as pessoas enfrentam a sua vida e consequente mortalidade. Perdemos um dos grandes, mas ao menos teve um final orgânico, em vez de se extender desnecessariamente.





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