Euphoria | Trouble Don't Last Always - ★ 8/10

Numa era sem precedentes, o mundo está-se a habituar ao novo normal apresentado pelo vírus COVID-19. Não obstante, a cultura também se tenta adaptar, e vemos nas companhias grandes várias maneiras de o fazer. Por exemplo, a equipa de Shameless decidiu envolver as personagens num panorama pandémico. Vários filmes viram as suas produções e datas de lançamento adiadas duas, três, quatro vezes. Umas quantas decidiram não mencionar o que se passava, e continuar com a ilusão de escapatória. Euphoria arranjou um meio-termo, adiando a segunda temporada, mas produzindo dois episódios especiais, o primeiro centrado na personagem principal que valeu um Emmy a Zendaya.


Pouco depois da recaída de Rue face à separação de Jules no final da temporada passada, a jovem encontra-se com o seu padrinho Ali (Colman Domingo) na véspera de Natal, num restaurante. Sendo um episódio desancorado de temporadas, foi tomada a oportunidade para usar apenas três personagens. O capítulo passa-se todo no mesmo sítio, com uma estrutura teatral de cinco actos e uma intermissão. Ainda drunfada, Rue e Ali têm uma discussão franca sobre o poder da sobriedade, e debatem eventos passados. Realizado e escrito por Sam Levinson, o criador, esta conversa é tudo o que se passa durante esta hora, despindo todos os efeitos visuais e coreografias cenográficas que rapidamente se tornaram emblemáticas, mesmo após apenas uma temporada pequena.

Pouca música e trabalho de câmara minimalista foram usados para tirar foco à estética, e dar mais peso à narrativa. A fotografia bela continua lá, mas este episódio cápsula rege-se pelos temas tratados, visto que a equipa criativa cimentou-se facilmente no ano passado. Não tinham de provar nada, e mesmo assim, conseguiram fazer jus ao provérbio "menos é mais". A estrutura construída refletiu perfeitamente a substância da história: simples e directa.


Colman e Zendaya fazem um papel excelente, digno do canal gigante no qual foram inseridos. Este encontra passa por vários temas, debatendo conceitos como deus, relacionamentos, fé, revoluções, nunca tirando o foco da sobriedade. A escrita encontrou um ponto de encontro entre conversa de amigos, e uma conversa terapêutica, com Ali tentando chegar ao fundo da questão pela qual Rue tem um problema tão grande com drogas numa idade tão nova. A rapariga afirma que não dá importância a absolutamente nada na vida, mas o seu padrinho mais experienciado revela-lhe uma verdade tão real quanto desolador: ela importa-se demasiado com tudo, com as questões importantes, tanto que ela não consegue estar acordada sóbria de tão assoberbante que é essa emoção. É uma qualidade encontrada em quase todas as pessoas com depressão e/ou ansiedade, qualidade essa que é difícil de se explicar a pessoas que nunca passaram por tal coisa. Isto dá a crer que as pessoas na sala dos escritores sabiam do que estavam a falar. Rue também faz perguntas a Ali, dando-lhe mais foco do que na temporada passada, algo que estava obviamente no horizonte deste ano.


Como o adulto na sala, o antagonista desarma a heroína das suas doutrinas enevoadas por estupefacientes, doutrinas essas que ela usa como desculpas para não querer melhorar. Ela questiona-se se existe um futuro para ela, sentindo-se uma pessoa má, num mundo imperdoável. Ali explica-lhe que ela não toma drogas por ser uma pessoa má, mas exactamente o contrário. Revela que é muçulmano, e a questão da fé é posta em causa. Rue diz que odeia o argumento de que é tudo plano de deus, desde que o seu pai morreu de cancro por nenhuma razão aparente. Justificavelmente zangada, Rue não quer que lhe falem de deus, então apenas fala-lhe que ela devia ter fé, não num homem mágico no céu, não numa música ou num amante, mas em algo maior que ela mesma.

Em terapia de Narcóticos Anónimos, um dos primeiros passos é aceitar a fraqueza face a um problema que toma conta da vida de qualquer pessoa. Depois de vermos Rue no seu pior estado, Ali apresenta-se como uma luz ao fundo do túnel, encapsulando meses de terapia numa simples conversa em que consegue perfurar as camadas de armadura que a nossa protagonista criou ao longo dos anos. As perspectivas apresentadas à audiência chegam até a servir de ferramentas para pessoas que possam passar por eventos semelhantes, mas que não tenham a maior noção de como falar sobre o assunto. Da última vez deixando a audiência numa incerteza ansiosa, o episódio acaba apaziguando-nos que se calhar nem tudo está perdido para Rue Bennett.


O tratamento da saúde mental, infelizmente ligada à maldição da consciência humana, apenas foi experimentada com tanta candura em poucas ficções hoje em dia, para nomear alguns, BoJack Horseman, The Magicians, ou One Day at a Time. Euphoria junta-se a esta lista com este episódio, no que foi provavelmente a melhor, mais honesta realista e crua conversa sobre doenças mentais que já apareceu na televisão. Ainda por cima com as festas natalícias a chegar, num ano marcado pelo distanciamento social, este pequeno conto torna-se mais relevante que nunca.

Parafraseando Ali: "uma notícia boa é que não és a única pessoa que está a passar por isto. Não estás sozinha." Se o próximo episódio (desta vez centrado na Jules) for tão bom como este, não há qualquer dúvida que Euphoria veio para ficar.





Fotos: HBO






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