Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga - ★ 5,5/10

Will Ferrell queria fazer um filme dedicado à competição de música europeia Eurovisão, depois de lhe ter sido apresentada há vinte anos atrás. A estreia era suposta coincidir com a edição de 2020, mas dado o cancelamento da competição devido à pandemia de COVID-19, este ano tivemos de nos contentar com um filme sobre o assunto. The Story of Fire Saga foi escrito e produzido por Ferrell, e realizado por David Dobkin, autor da mediocridade em forma de comédia. Infelizmente, este filme não escapou ao seu padrão.


Lars e Sigrit (Ferrell e Rachel McAdams), são dois músicos islandeses, com o sonho de ganharem o festival da Eurovisão, desde a edição de 74, em que ganhou ABBA com a famosa "Waterloo". As suas canções euro-pop são uma caricatura não muito irrealista do panorama musical popular europeu. Uma vez adultos e com um sucesso apenas local, se é que o têm sequer, consideram se deviam desistir das suas ambições artísticas. Mas apesar da sua mediocridade, uma oportunidade é-lhes concedida para competir no festival. Os actores fazem um bom papel com o que lhes é dado, com os sotaques bem aperfeiçoados, e caricatos o suficiente para conferir leveza à comédia. Mas este género hiper-gasto necessita de ser pesado em risos e ternura para prender uma audiência nos tempos correntes. A substância desaparece pelo terceiro acto, fazendo parecer que apenas havia uma anedota central nos protagonistas, e nada mais que isso. Lars torna-se exponencialmente insuportável, e as falas de Sigrit diminuem para um papel secundário.

Apesar do desfecho bonito, e dos milhões de euros gastos a construir um cenário clone da edição de 2019, demasiado tempo é gasto na dinâmica entre os dois sonhadores, e em planos panorâmicos da cidade de Edimburgo. Este plano em particular conteve uma rendição de Salvador Sobral da canção que ganhou em 2017 - uma escolha estranha de folk português para um panorama escocês. Com o passar da história, estas escolhas iriam aparecer com cada vez mais frequência, criando uma inconsistência entre o cómico e o sério. Inconsistência essa que é agravada com a quantidade de mortes nesta aventura, e os respectivos lutos inexistentes.


Sendo uma comédia musical, esta arte é colocada várias vezes em foco. Várias caras conhecidas da família da Eurovisão aparecem em cameos para agradar a fãs do evento. Uma ou outra em oportunidades calculadas certamente poderia elevar o nível do filme. Contudo, algumas sequências musicais rebentam pelas costuras com estas celebridades, apenas aumentando o tempo de rodagem. Seriam apreciadas de outra maneira se não tivessem usado canções que pouco ou nada têm a ver com folk europeu, euro-pop, ou com a competição em si.

Molly Sandén, participante sueca da edição infantil de 2006, e das edições do país de origem para elegerem o seu representante, emprestou a sua voz a McAdams para as suas canções islandesas. Com um timbre parecido ao da actriz, a mistura das duas vozes criou momentos que empurravam a narrativa, e traziam ao de cima o espírito de patriotismo e união que foi esteve na génesis deste festival. A canção original "Húsavik" se calhar dispensava os vocais básicos de Ferrell, depois da sua personagem alienar grande parte do interesse, mas foi certamente um clímax decente, digno de ter lugar no palco de Edimburgo.


The Story of Fire Saga ganha valor pelo tema central invulgar a audiências fora da Europa, que não estão habituadas a um festival internacional de artes musicais, entre tantos países. Para europeus, no entanto, é uma caricatura medíocre de um evento anual tão amado. Escrito por um americano auto-entitulado de super-fã, é debatível se o seu interesse não será mal calculado. Ferrell tinha um manual de instruções com 64 anos de material, e decidiu criar um sketch com uma anedota central, apenas tangente à realidade, que se provou desnecessariamente longo.




Fotos: IMDB.com/Netflix







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