Grey's Anatomy, ou como esmurrar o ceguinho durante quase vinte anos | Crónica

Em Março de 2005 a ABC Studios comprou um episódio piloto promissor. Escrito por Shonda Rhimes, cujos créditos eram escassos, a história seguia as vidas e tribulações de uma equipa de médicos. À primeira vista, não havia muito de extraordinario, mas o que captou o interesse dos milhões que seguiram a primeira temporada, foi a familiaridade com os problemas destes profissionais de medicina. Rhimes famosamente disse que teve a ideia quando uma cirurgiã lhe falou que teve de depilar as pernas no chuveiro do hospital, antes de ir a um encontro amoroso. É uma situação caricata, um lado da medicina que, até à data, raramente tinha sido interpretada no pequeno ecrã. A humanidade encontrada por detrás das máscaras e das batas foi a génesis de um novo tom que influenciou a televisão até aos dias de hoje.

Parei de acompanhar as peripécias algures pela 12ª temporada, quando a constante adição de personagens novas me causou perda de interesse. Por aborrecimento e demasiado tempo livre, decidi ir dar um olho na estreia da sua 17ª temporada, para ver se o nível de qualidade diminuiu ou aumentou. O que encontrei foi uma série completamente desgastada, como se cinco anos não se tivessem passado.


O elenco original contava com nove actores. À medida que as histórias se iriam expandido, a adição de mais quatro ou cinco fez com que a audiência se habituasse a este repertório de personagens algures pelo quinto ano. A habituação é um factor importante aqui, visto que a série era pesada apenas em duas frentes: narrativa e personagens, ambas dependendo uma da outra. No presente momento, apenas três destas personagens continuam a ter lugar na série. Várias coisas se trespassaram nos entretantos, como um caso de homofobia violenta entre dois actores, e "falhas de comunicação" com a criadora. Obviamente é de se esperar que depois de anos a fio a representar a mesma personagem, este ofício se torne banal, até porque as personagens recebem pouquíssimo desenvolvimento em cada capítulo. T. R. Knight, que interpretou George O'Malley durante cinco anos, até citou esta como uma das razões da sua saída.


Sandra Oh (esquerda) e Sara Ramirez (centro) interpretaram personagens principais durante uma década.

Apesar da empatia ser criada entre a audiência e o protagonista, ela é destruída depois de poucos anos quando a equipa criativa decide "ir por uma via criativa diferente". Tempo, dinheiro, e dedicação são investidos numa pessoa, que quando ela sai abruptamente, e normalmente por razões pouco justificáveis, sente-se que o investimento não deu frutos absolutamente nenhuns. Não serve de muito colocar as personagens por um Inferno se nunca acabam a ter nada que lhes valha a pena o sofrimento, muito menos se os vemos a cometer exactamente os mesmos erros durante década e meia. Ao menos podiam dar uma despedida às personagens que saem que contivessem um final feliz, mas nunca é este o caso.


Uma coisa evidenciada na estreia desta passada semana, foi a quantidade de eventos completamente surreais que acontecem nas vidas destes médicos. Colocar uma ameaça de bomba na segunda temporada resultou bem para conferir alguma ficção verosimilhante bem no início, mas o número de situações do género tornou-se exponencialmente maior com o passar dos anos. No centro da série temos Meredith Grey, interpretada até à exaustão pela grande Ellen Pompeo. Ainda que sendo a heroína deste drama, eis uma pequena lista do que se lhe ocorreu desde 2005:

  1. Colocou a mão dentro de uma cavidade de uma pessoa com uma bomba activa lá dentro;

  2. Quase que morreu por afogamento/tentativa de suicídio;

  3. A sua mãe morreu por complicações de Alzheimer's;

  4. O seu pai morreu por demência/por ter 50 anos de idade;

  5. A sua madrasta morreu por soluços (sim, soluços);

  6. Teve um aborto espontâneo na sequência de um tiroteio no hospital, e o seu marido levou um tiro no coração;

  7. O marido da sua melhor amiga também levou um tiro neste evento;

  8. O seu outro melhor amigo também levou um tiro neste evento, que era o namorado, na altura, da sua meia-irmã, a quem o ex-namorado de dita irmã teve de fazer cirurgia à pressa para tratar o tiro, com quem a meia-irmã acabou meses antes por ter engravidado a sua melhor amiga (do ex-namorado, não da irmã) enquanto esta estava separada da sua parceira, ainda que o melhor amigo de Meredith apenas namorava com a irmã para esquecer a sua ex-mulher, com quem casou à pressa tomando conta do casamento da Meredith, porque ela tinha um tumor cerebral/cancro nos ossos? (Eu não estou a inventar isto);

  9. Sobreviveu um desastre de avião no qual a sua irmã morreu;

  10. Sobreviveu um acidente de ambulância no meio de nenhures com o seu melhor amigo;

  11. Teve complicações a dar à luz;

  12. Teve complicações a dar à luz uma segunda vez;

  13. O seu marido morreu ao salvar uma dúzia de pessoas, muito heroicamente, fazendo com que ela fosse de sabática durante um ano;

  14. Sobreviveu um incêndio gigante no hospital;

  15. Sobreviveu um ataque violento de um paciente a ter convulsões;

  16. Sobreviveu outro ataque violento de um paciente que era o ex-marido abusivo da noiva do seu melhor amigo, que morreu imediatamente depois do ataque.

E agora dado o panorama pandémico global, também contraiu o vírus COVID-19. Isto tudo sem contar com coisas que ela activamente fez, como adulterar os resultados de um ensaio clínico, forjar seguros de saúde, ou até roubar um bebé. Perdi a quantidade de cancros e tumores que os seus colegas e amigos tiveram. Casos clínicos raros acontecem, apesar da sua invulgaridade, mas Grey + Sloan Memorial parece ser o epicentro para todos os eventos irrealistas que acontecem no mundo. As acções do hospital já deviam ter caído há imenso tempo, mas por alguma razão, ninguém parece achar estranho que tanta porcaria aconteça no mesmo sítio. Diz-se que a trovoada não atinge um sítio duas vezes, mas em Seattle, podemos esperar meia dúzia de relâmpagos num ano.


Meredith Grey, horas depois de dizer que daria uma excelente Mãe.

Também quase que me esquecia dos nomes dos três filhos de Meredith, porque, apesar da vida de medicina ser imperdoável, nenhum pai no elenco aparece com algum filho por mais de cinco minutos. Na estreia do passado mês, descobri que haviam 4 crianças novas no grupo - mal mencionadas, sem explicação por não terem tempo de antena. Meredith vê ainda menos os seus filhos do que a sua progenitora a via a ela, algo de que ela se queixava bastante no início da série. De passagem é dito que estão na creche, quem sabe até serem maiores de idade. Ou se calhar, perpetuamente, visto que crianças que nascem de mulheres nos seus quarenta e muitos hão-de ter um défice ou outro no crescimento.


Seja como for, estes cirurgiões impossivelmente deslumbrantes recebem tanto desenvolvimento quanto há nivel de realismo nos diagnósticos - quase nenhum. Os actores recitam constantes termos médicos em auto-piloto, como se estivessem a decorar uma receita para um bolo de bolacha. O mesmo acaba por se espalhar para outros diálogos, e o resultado final, é uma narrativa fraca que maltrata vários assuntos dos quais tenta tratar. As coisas que lhes acontecem são estranhamente resolvidas com o passar de dois episódios. Miranda Bailey (Chandra Wilson), provavelmente a personagem mais medíocre na História, descobre que tem Distúrbio Obsessivo-Compulsivo, algo que quase lhe custa a carreira. É-lhe receitada medicação e ela volta à sua vida como se nada fosse, nunca mais mencionando o que acabou de se passar.


A personagem de Kevin McKidd (esquerda) estreeou a 17ª temporada com o seu terceiro casamento falhado.

Quando acho que não preciso de apontar estas inconsistências, lembro-me das várias cenas em que Arizona Robbins (Jessica Capshaw) aparecia com duas pernas completamente funcionais. A sua mulher tinha amputado uma delas depois do acidente de avião já mencionado, e aparentemente nem os escritores se lembram disso. Mas eles fazem o que bem querem, desde que fizeram um anestesiologista tornar-se aprendiz de medicina, para depois se tornar paramédico/bombeiro ou o raio que parta que ele faça em Station19 que pouco interessa a quem quer que seja.


Quando Grey's Anatomy perdeu o elenco e a narrativa original, perdeu tudo. Já não havia muito mais por onde pegar, com argumentos insípidos, cinematografia básica, e substância medíocre. Por um lado, é uma série com um elenco muito multi-cultural, mas este elemento torna-se debatível se é a única característica de uma personagem.

Copulado com a personagem principal apaixonar-se exclusivamente (seis!) por homens brancos, de olhos claros, altos, com excelente cabelo, excelente barba, excelente carteira, e excelente ascendência irlandesa/italiana, a quantidade claramente não compensa a falta de qualidade. Grey's Anatomy serve de excelente exemplo de como se deve parar com algo que já não funciona.



Fotos: IMDB.com/ABC/ShondaLand





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