Um mimo para fãs dos livros, que ficaram sem uma adaptação do segundo da trilogia dado que o filme de Chris Weitz foi tão mal recebido, HBO e BBC voltaram este ano com a segunda temporada de His Dark Materials. Baseado em The Subtle Knife, a temporada continuou com as aventuras de Lyra (Dafne Keen) pelos mundos paralelos, juntando vários géneros num só.
Este ano encontramos a nossa jovem heroína em Cittàgazze, depois de ter atravessado a fenda criada pelo seu pai no final da temporada passada. Nesta cidade, misteriosamente escassa em pessoas, ela encontra Will Parry (Amir Wilson), que também atravessou um portal no seu mundo (mundo este igual ao nosso), que se juntou ao elenco principal. Will procura o seu pai, Lyra procura informação sobre Pó, e apesar de um desdém inicial dados os seus passados atribulados, eles percebem que os seus objectivos alinham-se ligeiramente, acabando a concordar em trabalhar juntos.
As outras personagens principais são denegridas a um papel mais secundário nesta temporada, embora continuem a ter influência nos eventos da história. Mas apesar do seu tempo de antena mais diminuído, a história preocupa-se em continuar com os seus respectivos desenvolvimentos. Desta maneira, cada minuto é cautelosamente dedicado a servir um propósito maior. Inclusive não se poderam dar ao luxo de "encher chouriço", visto que tinham apenas sete episódios com que trabalhar. Nenhuma pessoa com importância é esquecida ou apenas colocada para encher uma quota - cada um contribuiu para encher este mundo de substância, e propulsionar a história para a frente. Dito isto, o paço a que se desenrolou a acção foi muito constante e agradável de se seguir, perfeitamente reflectindo a desnorteação e incerteza da dupla principal.
Cittàgazze é uma cidade entre mundos que, como o nome indica, é baseada em cultura Italiana (adicionando à temática religiosa da série). Com a adição oficial deste mundo, juntamente com a Oxford de Will, à lista de sítios onde se passa a acção, existe um choque de culturas tremendo nesta segunda parte. Apesar de haver extensa cobertura destes sítios todos na obra de Pullman, o desenho técnico e a cenografia foram executados de uma forma estupenda, para trazer à vida o que eram apenas descrições, por mais que estas fossem detalhadas.
Ao invés de apenas produzir um espaço Italiano básico, houve uma grande preocupação ao adicionar o elemento de estranheza nesta cidade. Se não fosse o caso, Will estaria severamente menos assoberbado ao encontrar arquitectura e linguagem familiar ao país do mundo dele. Desta maneira injectou-se uma emoção de maravilha, não só no duo adolescente, mas também na audiência, ao mostrar um sítio tão semelhante ao nosso, mas ao mesmo tempo, tão diferente e fantástico. Quem quer fazer um bom trabalho usa sítios parecidos para filmar algo; quem quer fazer um excelente, cria-os.
Embora falado já falado ligeiramente, a diferença de género está mais presente neste conjunto de episódios. Marisa Coulter (interpretada de um modo sublime pela grande Ruth Wilson, que roubou qualquer cena em que se inseria), acaba a travessar entre mundos, onde encontra Mary Malone (Simone Kirby). Malone é doutorada em astrofísica e neuropsicologia, tendo publicado uns quantos trabalhos que lhe conferiram reputação entre os seus iguais, e encontra-se de momento a estudar matéria negra. Além de Lyra comentar que no mundo dela a doutora nunca poderia ter desistido da sua vida de devoção a deus, Coulter fica chocada com o sucesso que ela obteve. Mais tarde, com uma actuação brilhante, Coulter explica em como ela teve tanta ou mais educação no seu mundo, mas apenas podia ser reconhecida se o seu nome estivesse atrelado ao de um homem.
Neste confronto voltamos mais uma vez à questão de uma sociedade controlada por uma instituição religiosa militante, que esconde o conhecimento da população geral. Esta exposição traz profundidade a esta história fantástica, especialmente em duas frentes: em primeiro lugar, preenche várias lacunas que explicam a tenacidade de Mrs. Coulter, e o seu lugar invulgar no Magistério do seu mundo. Em segundo lugar, ilumina mais a situação social na qual a sociedade de lá se encontra: o mundo de Lyra progrediu num caminho muito diferente do de Will, um caminho pelo qual o Magistério fez questão de se inserir em decisões universais, e o seu poder cresceu imenso. No mundo de Will - mais uma vez mencionando que é igual ao nosso - é de conhecimento geral que o índice de desenvolvimento humano foi retardado pela influência do clero e da igreja na sociedade. A dúvida filosófica cresceu o suficiente para vários heróis lutarem pelo conhecimento, e tirar o mundo da Idade das Trevas, pouco depois da queda do Império Romano.
Assim, uma alegoria é encontrada no mundo de Lyra, já revelada no ano passado, mas ainda mostrando as suas repercussões nos cidadãos do seu mundo. É personificada por uma sociedade que progrediu culturalmente e tecnologicamente, embora por uma via cuja sabedoria do mundo é controlada. Na linha narrativa de Mrs. Coulter, estes aspectos invulgares são expandidos, tocando ligeiramente na batalha pela igualdade de direitos de género, tão emblemática na nossa História, mas infelizmente ainda dormente na História deles. O Magistério, quando ameaçado, retalia com força extrema, chamando à atenção os temas anti-igreja presentes nos livros em que se baseia a série.
Mesmo com um paço ligeiramente lento nos primeiros episódios, a acção rapidamente se desenrolou, a uma velocidade exponencial e orgânica. A exposição nunca foi demasiada, deixando muito que explicar, suficiente para encher uma terceira e, supostamente, final temporada.
Deslumbrantemente misterioso, His Dark Materials promete fazer justiça aos livros, ao mesmo tempo que segue o seu próprio caminho. Embora saibamos o que esperar, a expectativa conseguiu ser aumentada para o seu futuro.





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