Tenet - ★ 7/10

Adiado três vezes durante pouco mais que um ano, Tenet chegou às salas, com uma equipa de luxo. Realizado por Christopher Nolan (Interstellar, Dunkirk), e protagonizado por John David Washington (Ballers, BlacKkKlansman), o filme contou também Ludwig Göransson no som, e Hoyt van Hoytema na cinematografia. Um filme longo, deslumbrantemente feito, provou ser dos primeiros de Nolan em que começou a haver falhas demasiado básicas.


Washington protagoniza o Protagonista. Chamado assim por várias razões, entre as quais ele esquiva qualquer pergunta sobre si mesmo, e começa o filme dado como legalmente morto depois de uma missão de Operações Secretas. É recrutado para uma organização que se preocupa com o aparecimento de objectos com entropia invertida, supostamente vindos do futuro. Estes objectos atravessam o tempo ao contrário, face a nós. Uma substância nestes objectos aparenta estar conectada a uma localização e um homem específico, os quais o Protagonista decide encontrar, face a ameaça que esta tecnologia apresenta ao mundo.

Durante a primeira metade do filme, as sequências de acção ditam o paço geral, paço este que não deixa espaço para respirar. Com constantes explosões e tiroteios, é fácil sentir-se um pouco de fadiga de batalha, ainda que estas sequências sejam extremamente bem coreografadas e executadas. Não é por acaso que o filme teve um estrondoso orçamento de 200 milhões de dólares, embora não tenha exactamente feito lucro suficiente. No entanto, há que se apontar que a edição e os efeitos sonoros por vezes pareciam mal feito, ou apenas pouco polidos. Perfeição é impossível de se atingir, e qualquer pessoa que a exiga vive numa ilusão. Mesmo assim, para algo que tenha o nome do Nolan na matrícula, é estranho de se pensar que houve tantas coisas que correram mal em pós-produção. Apesar de uma fotografia incrível e imersiva, devia ter havido mais cuidado nos detalhes, embora uns quantos deles se podem desculpar com a pandemia global a ter influência na performance dos indíviduos empregues no trabalho.


Não é de se negar que a narrativa segue uma estrutura complexa, encapsulando uma ideia abstracta um tanto ou quanto complicada. Isto é algo muito frequente no trabalho do realizador, sendo até esperado dele nos dias de hoje. Dito isto, a segunda metade do filme preenche imensas perguntas que a audiência pudesse ter até àquele ponto. O fascínio de Nolan com o tempo fala alto neste filme (não tão alto como o som ensurdecedor da banda sonora, que tentava e falhava miseravelmente em invocar o mesmo estilo pós-industrial de Trent Reznor). Como tal, é usada uma tabela de tempo repleta de inversões e ilusões, aproximando a magia visual de The Prestige, com a desconfiança inerente a um ponto de vista humano presente em Memento.


Embora o filme mencione de passagem a teoria multiverso, o seu conteúdo basea-se pesadamente no "paradoxo do avô": uma teoria de viagem temporal que questiona que se uma pessoa voltasse ao passado e matasse o seu avô, como é que ela continuaria viva. Uma vez apresentada, é de esperar que a maioria das ocorrências estranhas tenham algo a ver com este paradoxo.

Não obstante, alguns eventos foram mal explicados, como por exemplo o porquê do duplo do herói tentar matar o seu eu do passado. Embora se entenda que objectos/pessoas que tenham a sua entropia invertida acabem a percorrer o mesmo caminho como se estivessem num estado normal, é difícil de se acreditar que com esta informação certas acções sejam devidamente justificadas. Ou apenas podiam mencionar que foi estranho como o Protagonista consegue falar com uma pessoa com entropia invertida em perfeito inglês, e donde saíram todos os torniquetes que invertiam dezenas de indivíduos de uma vez.

No entanto, são pequenos marcos que de todo não arruinam a experiência neste mundo que ameaça torcer a mente de qualquer um. Por várias vezes os filmes fazem a escolha de não dar tudo de mão beijada à pessoa do outro lado do ecrã, com a intenção de deixar algo à imaginação, forçando a audiência a deixar-se levar pela onda da imersão. Se há coisa que Tenet consegue fazer, é prender os olhos ao grande ecrã.


Famosamente Nolan ditou que os filmes devem ser uma experiência, em contraposição com películas feitas apenas por dinheiro, ou como Scorcese disse: "filmes equivalentes a montanhas-russas". Várias críticas a projectos recentes do realizador em questão propõem que o artista está cada vez mais a dar nós em si mesmo, mas é apenas uma questão de perspectiva se tal feito é uma coisa boa ou má.

Obviamente várias técnicas foram usadas que já estão gastas e vistas em passadas obras no currículo dele, como pessoas a andarem pela rua a expôr uma tonelada de informação, um aliado britânico extremamente capaz, coreografias intensas de batalha, ou Kenneth Branagh a protagonizar um vilão estrangeiro extremamente estereotipado. Porém, todas estas assinaturas são apenas veículos de narração para chegar a um ponto maior, normalmente um que se sobrepõe a todas as falhas que se apresentam ao longo dos actos.


Filmes de ficção-científica têm de quebrar regras para poder imaginar o futuro, e com isso, refazer o presente. Tenet é uma excelente adaptação de teorias vanguardistas, com uma reimaginação fresca do género de espionagem. Intenso e belo, consegue apresentar os pontos fortes do trabalho de Nolan, ainda que também apresente uma fraqueza ou outra.



Fotos: Warner Bros. Pictures







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