Com comédia e drama Pete Davidson e Judd Apatow escreveram um filme semi-biográfico da vida do actor de Saturday Night Live. É uma história de crescimento mental, algo que se pode paralelizar com a geração que de momento se encontra entre os vinte e os trinta. Não é uma idade fácil, como o filme evidencia, muito propensa a mudança, o elemento fulcral em questão. Este filme, pesado em narrativa em detrimento de outros aspectos, conta-nos uma história multifacetada, bastante real.
Davidson protagoniza Scott, um jovem adulto em estado de desenvolvimento interrompido. Sem motivação ou direcção alguma, vive com a mãe (Marisa Tomei) e irmã (Maude Apatow, que parece ter de ter um papel em tudo o que o seu pai financia). Situado na predilecta Staten Island da cidade de Nova Iorque, Scott passa o seu tempo a fumar erva e a fazer tatuagens medíocres com os seus amigos. O seu pai faleceu há bastante tempo, resultado do seu ofício de bombeiro, que foi o que causou a maioria do trauma do protagonista. Com a sua irmã a sair de casa para frequentar a universidade, e a sua mãe a despejá-lo quando encontra um pretendente na personagem de Bill Burr (também bombeiro), Scott vê toda a gente à sua volta a progredir com as suas vidas.
Fotos: IMDB.com/Apatow Productions
Além de sofrer de doença de Crohn e défice de atenção, as poucas tentativas de se tornar no que ele pensa ser adulto provam-se apenas isso: tentativas miseráveis. No seu estado presente, não tem as maiores oportunidades do mundo. No entanto, sem motivação ou objectivos maior é a dificuldade. Numa era em que se fala de saúde mental mais que nunca, a audiência está um pouco mais atenta a situações do género, do que, se calhar, há vinte anos atrás. Scott é uma personagem que não tem nada de extraordinário, se não uma verosimilhança em abundância, muito relevante nos dias de hoje.
Eventualmente, Scott fica sem-abrigo. A mãe, além de querer seguir com a sua vida, também quer que o filho o faça com a sua, usando amor duro para esse fim. Os bombeiros do quartel de Ray, a personagem de Bill Burr, deixam-no ficar por lá, em troca de trabalhos variados. Trazendo-no para o círculo, os homens explicam-lhe que conheciam o pai falecido do protagonista, contando-lhe histórias que o humanizam. Algo importante para fazer o luto, é aceitar a realidade, coisa que para Scott sempre foi difícil. Crescer rodeado de medalhas e feitos proclamados do seu progenitor impediu-lo de deixar essa parte da vida dele para trás. Ao invés de lhe dizer pela milionésima vez que o seu pai era um grande herói, contam-lhe peripécias não tanto embelezantes, levando o rapaz a perceber finalmente que o seu pai também era uma pessoa, antes de ser bombeiro.
A questão da letalidade do ofício também é posta em causa, quando Scott opina que os bombeiros não deviam ter filhos. Concordando em discordar, a opinião paira no ar, deixando aos espectadores formarem uma perspectiva por eles mesmos. Mesmo assim, ter um pai falecido não é desculpa para ficar parado no tempo, durante tantos anos. Ray percebe que Scott passou por muito que não devia ter passado, e a realidade, não é que uma pessoa precise de uma figura paternal masculina, mas sim que precise mais de tal quando esta lhe é tirada tão cedo.
A razão pela qual este filme é tão atraente, não é pela sua moral, ou pelo trabalho técnico, ou pelo elenco acima da média. É porque a história não tem a maior acção, nem o maior desfecho. É uma história que não tem objectivo, muito como a personagem principal: apenas um sem-vida a tentar perceber como funcionar, que é algo com que qualquer pessoa no mundo moderno se pode relacionar. Todas as personagens são pessoas perfeitamente normais, sem nada que as faça propriamente especiais, ou que se destaquem. Equilibrando estes elementos básicos, a película torna-se em mais do que a soma das suas partes. É algo que pode ser a história de vida de qualquer pessoa que esteja a ver.
Fotos: IMDB.com/Apatow Productions





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