Realizada por Sérgio Graciano e escrita por Patrícia Müller e Vera Sacramento, A Generala é uma série da SIC que pegou na história real de Maria Teresinha Gomes, infâme por ter passado duas décadas a viver sob uma identidade falsa, e a burlar pessoas.
Com seis episódios repletos de acção e drama, esta produção portuguesa brilhou num ano escuro, e tornou-se numa das poucas que vale a pena o tempo dispensado, dado o país de origem com mediocridade a rebentar pelas costuras.
Soraia Chaves interpreta Maria Luísa Paiva Monteiro, que foi presa e está a ser julgada em Lisboa pelos seus crimes. A sua vida é mostrada desde a sua infância no Funchal, até ao presente tempo de 1993, interpretada por Carolina Carvalho nestas sequências no passado. Filha de um pai submisso e uma mãe assoberbantemente manipuladora e abusadora emocional, ela vive na sombra do seu irmão falecido, Octávio. Depois de uma tentativa de abuso sexual que a sua progenitora recusa-se a reconhecer, a jovem desesperadamente simula a sua própria morte e escapa para o continente. Inteligente e engenhosa, é lá que ela adopta a identidade do seu irmão, e apresenta-se como Octávio a todos, entre outras identidades falsas, a principal de todas sendo a de o titular General do Exército Português.
O elenco com actores bem versados em telenovelas excede-se nesta história, apesar de José Fidalgo ser completamente dispensado visto que durante os últimos anos ele interpreta sempre um único papel e mais nenhum. Chaves e Carvalho, por outro lado, fazem um papel simbiótico, perfeitamente encapsulando cada emoção que passa a personagem principal. Embora excessivamente dramático por vezes, ao final do dia é uma vida repleta de ansiedade, e emoções à flor da pele, que estamos a seguir. É um dia-a-dia difícil, em que a protagonista pode perder absolutamente tudo de um momento para o outro se baixar a sua guarda. Sequências longas e sem cortes são usadas com frequência, o que confere uma maior naturalidade às conversas e à acção que decorrem. O parlar humano está sempre sujeito a conhecimento fragmentado, a interrupções e abreviações, e com estes métodos de filmagem e edição, os actores têm maior espaço de manobra para interpretar o argumento de modo a que pareça menos cuidado e mais orgânico.
A escrita em si também ultrapassa limites pouco vistos no panorama cultural do país de origem. Apesar de haver imenso material de origem, dada o extremo seguimento mediático do caso em questão, é normal haver várias lacunas na história que tenham de ser imaginadas. Contudo, Müller e Sacramento conseguiram manter a especulação a um mínimo, apenas assumindo o que fosse estritamente necessário, sem desviar dos pontos principais e do que realmente ocorreu. É, de facto, uma dramatização dos eventos, mas isso não quer dizer que tudo o que não se sabe precise de ser inventado - é necessário que um escritor entenda a história o melhor possível para trazer algo assim ao ecrã, e as escritoras conseguiram fazer exactamente isso.
O que aparenta apenas ser uma escapatória à sua vida, e um bom disfarçe para se esconder, revela ser algo mais pouco depois da primeira hora. Maria Luísa não está apenas a fazer-se passar por Octávio, ele é Octávio. O simbolismo cimentado no primeiro episódio reflecte exactamente isto, ao mencionarem a ninfa de Ovid, que depois de abusada por Neptuno, deseja tornar-se homem. Octávio é fruto das suas experiências, sempre tendo rejeitado a educação da mãe. Esta conta-lhe na sua infância que "os homens têm o mundo na mão", enquanto que às mulheres apenas se lhes ordena que sejam "senhoras bonitas". Esta rejeição é evidenciada pelo seu caso com um homem casado na sua adolescência, que se pode ver que pouco ou nada teve a ver com a sua orientação sexual, mas mais a corrupção dos ensinamentos que lhe tentaram injectar. Octávio é fruto das suas circunstâncias, não obstante a era em que vive, em que não só a homossexualidade era ilegal, mas a transsexualidade estava a cerca de quarenta anos de distância de ser protegida por lei. Jacinta (excelentemente interpretada por Margarida Marinho), parceira de Octávio durante uma parte da sua vida, apesar de saber da condição do seu ente querido, torna-se inteligentemente ansiosa e panicada quando discutem homossexualidade à sua frente, tanto antes, como depois da revolução dos cravos.
Para Octávio, a sua identidade de género é-lhe tão real quanto o seu título de General. É quem ele sente que é, e é quem ele apresentou ao mundo como maneira de se sentir quem é. É uma pessoa que comanda orgulho, e respeito. É uma pessoa de família, com um bom trabalho, com posses, de alta sociedade, tenaz, presistente, e de boa postura. É também adúltero, guloso, e mesquinha. Todas estas características são tradicionalmente atribuídas ao sexo masculino, e ao cargo que o protagonista aparenta ter. É criado um equilíbrio inigualável, que não justifica de todo os crimes cometidos pela narrativa, mas que traz alguma luz para que haja um certo entendimento no que esteve na origem destes males. Octávio Paiva Monteiro fez tudo o que quis, e tomou tudo o que quis - não há nada mais basicamente masculino do que isso.
Apesar dos últimos episódios conterem um quê de telenovela na resolução das tramas em foco, é a via mais lógica pela história poderia ir. Fantasticamente executada, com uma cinematografia de renome, elenco soberbo, escrita e caracterizações perfeitas, A Generala poderá muito bem ser a única produção Portuguesa que chega aos calcanhares de Sara. Pode muito bem também significar um ponto de viragem na histórias audiovisuais do país, bem como do canal em que apareceu. As pessoas da Madeira é que podiam ter tido sotaque da Madeira, mas isso é desculpável.
Fotos: IMDB.com/SIC





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