Lingua Franca - ★ 6,5/10

Isabel Sandoval é realizadora, actriz, e escritora. Quase sem créditos passados, criou Lingua Franca, uma história com temas pesados, mas com um toque leve. Extremamente atarefada com estas funções, o resultado foi um íntimo, belamente filmado, embora o minimalismo poderá não ter sido a melhor via.


Sandoval interpreta Olivia, uma mulher transgénero imigrante das Filipinas, a tentar viver nos Estados Unidos da América. Sempre a olhar por cima do ombro, dado o panorama governamental face a imigração, ela encontra-se a gastar quantidades exurbitantes de dinheiro a pagar por um marido, de modo a obter residência e nacionalidade. Embora prefira casar por amor, como a sua amiga de infância que teve sorte, ela não acredita que isso lhe irá acontecer num local tão inospitável. Enquanto lida com o seu estado civil, trabalhar como cuidadora para uma senhora idosa (Lynn Cohen, também ela imigrante, e acaba a conhecer o seu neto, Alex (Eamon Farren), por quem começa a desenvolver afecto.


É pintado um panorama socio-político muito realista, tocando tanto no tema de identidade de género, como no de imigração. Notícias na rádio e nas TV's são ouvidas no decorrer da história, relembrando que nem todos são bem-vindos no país de oportunidades. Olivia mostra-se ansiosa e só na sua demanda por esconder os seus segredos. Vive presa entre dois países que não dão a melhor hospitalidade. Alex aparece-lhe na vida inesperadamente, e, embora tenha uma ambivalência quanto à identidade da jovem, parece corresponder-lhe o afecto. Neste sentido, o rapaz quase que é uma reflexão do país em que ela se encontra - ama-a e aceita-a, mas tudo o que faz de errado destrói-lhe a confiança que ela cuidadosamente não dá a todos. Chega a roubar-lhe o passaporte, como se lhe estivesse a roubar identidade por completo, a tirar-lhe uma das poucas coisas que são completamente dela. É impossível de perceber se Alex quer-se comprometer com Olivia, muito como os estado-unidenses fazem com pessoas da etnia e do género dela.

A lingua franca usada para contar esta história nunca é explicada. Há quem debata que a linguagem é o cinema, ou a solidão, ou o amor. Mas se há algo que toda esta película é, é inegavelmente íntima. Sandoval realiza, escreve, actua, edita, produz, e baseia-se na sua própria experiência. É ela que cola todos os elementos de um modo deslumbrante, oferecendo uma experiência quase de voyeur à audiência. Embora tenha um desenrolar lento, é deslumbrante ver algo menos que perfeito. O efeito simplista que foi escolhido para mostrar estas personagens e as suas tribulações resulta bem, pois inteligentemente não se deixa demasiado tempo a expôr os vários passados. Por outro lado, contudo, há quem possa argumentar que houve pouca profundidade, e por consequente, pouco desenvolvimento dos protagonistas.


Lingua Franca é um filme que diz pouco, mas tudo o que diz, é perfeitamente dito. Teria perdido substância e haveria problemas de inconsistência caso tivesse passado o marco dos 90 minutos. Embora não seja uma produção extraordinária, Sandoval ganha em humanidade e intimidade mostrada ao longo da narrativa.



Photos: IMDB.com







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