August Wilson faleceu em 2005 e deixou para trás 10 peças de teatro. Estas peças tratavam da experiência Afro-Americana no século XX, e todas elas foram nomeadas para Tony's e Pullitzer's. Denzel Washington recebeu a oportunidade de produzir cada uma delas, e, depois de Fences, pegou em Ma Rainey's Black Bottom. Realizado por George C. Wolfe, a história foi perfeitamente actuada, e teve uma recepção à justa.
Ma Rainey (Viola Davis) é a "Mãe dos Blues" em Chicago no ano de 1927. Convidada por executivos brancos, a história passa-se numa tarde durante uma gravação. Ela e a sua banda tomam um intervalo da tour no sul dos Estados Unidos para gravar um disco, e tensões antigas vêem ao de cima. Também em grande foco, Levee (Chadwick Boseman), sente que as suas capacidades estão para lá de ser apenas a trompete na banda de Ma. Como tal, esforça-se por ter o seu próprio holofote, chocando cabeças com a mulher intimidante.
Sendo baseada numa peça de teatro, o filme não é propriamente pesado em narrativa. Mas também como tal, é extremamente pesado em personagens, e os seus consequentes monólogos. Viola Davis está completamente irreconhecível, chegando ao nível de transformação de Heath Ledger como Joker. Além da caracterização estar incrível, a sua actuação rouba qualquer cena em que ela se encontra.
Não obstante, Chadwick Boseman entrega dois dos melhores monólogos da sua carreira. Com o uso de banda sonora apropriada, e sequências longas sem cortes, o actor falecido, a quem o filme é dedicado, dá-nos a crer que este homem tinha muitíssimo mais para dar. Diagnosticado em 2016 com cancro colorretal, ele manteve a sua condição em segredo para o público, e mesmo assim, conseguiu dar-nos mais sete trabalhos ao longo dos anos, e um dos melhores episódios de Saturday Night Live. Nesta última performance, Boseman mostra-se digno de dançar com Davis, provavelmente uma honra mútua entre os dois.
A narrativa não só passa pelas personalidades gigantes e sufocantes dos protagonistas e antagonistas, mas também pela sua experiência sendo Afro-Americanos na sociedade Americana do início do século XX. Embora a maioria da película se passa no estúdio, mais uma vez evocando produções teatrais, pequenas sequências mostram um par de peripécias fora dele. Apesar de Ma Rainey ser uma mulher dura e imperdoável, ela era apenas um fruto da sociedade em que cresceu. Como um membro da sua banda disse, "não foram os brancos que fizeram a sua carreira". Estes mal a reconhecem, e apenas a tratam com o mesmo racismo que tratam todos os outros com a sua cor de pele.
Contudo, uma justaposição engraçada é criada nos dois executivos que a contratam: um deles mostra-se ambivalente pela presença da Mãe dos Blues no seu estúdio, não tendo tempo para divas. O outro, mais afável e generoso, parece apenas querer gravar com ela pelo possível dinheiro que o disco irá fazer, o que não é de todo uma motivação racista ou adjacente a tal, se ele trata todos os que aparecem por ali pelo mesmo parâmetro. Estes detalhes ajudam a reflectir parte do conteúdo nas conversas das pessoas em cena. Enquanto eles discutem a influência dos pretos na música Americana, em particular os blues, estes eventos pequenos servem de exemplo para as perspectivas em questão.
Uma tour de force para os dois actores principais, Ma Rainey's Black Bottom dramatiza uma sessão de gravação com grande relevância histórica. Balança pela linha de ficção histórica, e documentário, evocando as personalidades que tanto influenciaram estas décadas, num micro-cosmos da vivência de músicos de blues. Extremamente bem realizado, a audiência poderá ter expectativas altas para as próximas produções do acordo de Washington-Wilson.
Fotos: IMDB.com/Netflix





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