Poucos filmes conseguem evocar algo que seja difícil colocar em palavras. Quer seja pela realização, escrita, edição, qualquer elemento que esteja presente na grande tela. Ainda menos vezes o produto final de uma produção consegue ter mais valor do que a soma das suas partes. Sound of Metal é um desses filmes, com uma equipa pequeníssima para o que acabou a ser, realizado também por um realizador com um currículo minúsculo, Darius Marder.
Riz Ahmed interpreta Ruben, um jovem adulto tatuado, musculado, depilado emocional, com cabelo loiro-lixívia, bastante certo da sua maneira de viver inconveniente. A razão pela qual o descrevo assim, é que o único outro filme escrito por Marder, The Place Beyond the Pines de 2012, tinha uma personagem principal exactamente igual, palavra por palavra. Fora isso, Ruben namora com Lou (Olivia Cooke), e ambos têm uma banda minimamente bem-sucedida de heavy metal, na qual Ruben é baterista, bem como uma autocaravana e um estilo de vida nómada. Contente com o seu dia-a-dia simples, a sua vida é virada do avesso quando ele subitamente perde a sua audição por completo.
Dado o seu novo estilo de vida, esforços grandes foram feitos para colocar o espectador no ponto de vista de Ruben. Ele ainda tem cerca de 10% da sua audição, e como tal, consegue ouvir certos tons e conversas, como que se estivessem cobertas por inúmeros tapetes. Nicolas Becker, cabeça do departamento de som, e a sua equipa fizeram um trabalho soberbo ao fazer a audiência experienciar o silêncio ensurdecedor agora presente na vida do músico. A mixagem de som inconveniente, quase experimental, foi fulcral para criar uma imersão tremenda, e salientar a forte actuação de Ahmed.
Grande parte do filme é passado numa comunidade de entre-ajuda em que todos os residentes são surdos. Este sítio tira várias das suas práticas dos célebres Alcóolicos Anónimos. Ruben chega lá completamente contrariado, enquanto que os seus novos colegas de casa o fazem sentir mais bem-vindo possível. Têm reuniões em que falam de si mesmos e dos seus passados, e perdido na tradução, o jovem tem dificuldade em adaptar-se a este novo sítio e a esta nova vida. Todos têm tarefas, mas as de Ruben são apenas aprender Língua Gestual, e aprender a coexistir com o silêncio. Desta maneira, a história tenta pintar a adaptação como uma de recuperação de uma dependência - um vício em usar audição, mas que agora é completamente impossível receber a dose.
Esta teoria é evidenciada e reflectida pelo passado de toxicodependência de Ruben, que apenas é revelado pelo terceiro acto do filme, estando há 4 anos sóbrio. Não obstante, vimos a descobrir que não só o líder da comunidade (Paul Raci) teve problemas com o álcool, mas grande parte dos residentes também tiveram as suas fases dependentes. É uma perspectiva interessante, que rege a grande maioria das acções do protagonista, incluindo e principalmente a sua ambivalência para com aceitar o seu problema, aprender a viver com ele, e aprender Língua Gestual.
Dado como filme de terror para bateristas, Sound of Metal merece mais atenção do que a que lhe foi dada. Vários aspectos são dignos de uns quantos prémios, entre os quais pelo menos uma especial menção à canção de Olivia Cooke com o seu pai no ecrã, Mathieu Amalric, que foi dos clímaxes mais estrondosos que se ouviram nos últimos tempos.
Pintando uma paisagem invulgar, o filme traz à ribalta uma realidade tangente à de muitos nós, mas tão presente quanta a nossa. O holofote foi colocado numa comunidade e numa cultura muitas vezes esquecida, e o resultado foi estupendo.
Fotos: IMDB.com/Amazon





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