Esta semana no habitual bloco de mediocridade em capas, temos o novo filme no universo cinematográfico da DC, Wonder Woman 1984. Realizado por Patty Jenkins e produzido em parte pela actriz titular e Zack Snyder, a sequela do filme de 2017 ficou áquem do esperado.
No entanto, apesar dos clichés e típicas lutas gastas de super-humanos, foi por outras vias que este capítulo não foi tão bem recebido.
Diana (Gal Gadot) encontra-se em Washington D.C., 66 anos depois dos eventos do primeiro filme. Trabalha para o Smithsonian como antropóloga, especializando-se em civilizações Mediterrânicas. Como tal, chega-lhe às mãos um artefacto curioso que parece conceder desejos. De entre as várias pessoas que entram em contacto com ele, entre elas Barbara Minerva (Kristen Wiig, peculiarmente excelente), Diana acaba por pedir um desejo acidentalmente na sua ignorância, e acaba por ressuscitar Steve Trevor (Chris Pine). Nos entretantos, Pedro Pascal interpreta o vilão Max Lord, que quer a relíquia para os seus fins egoístas.
Apesar da linha narrativa dos poderes de Diana serem refrescantes, e desenvolvidos organicamente, houve demasiadas incongruências para apreciar os bons aspectos. Passado em 1984, a publicidade do filme focou-se quase única e exclusivamente em luzes neón, música da década, e na personagem de Wiig. Contudo, o filme pouco ou nada teve a ver com estes elementos. Apesar do seu título de doutora, Diana veste-se com moda de 2005, e a banda sonora foi intemporalmente cliché. Barbara, cujo alter-ego de Cheetah é provavelmente a vilã mais icónica do material de base, foi uma história de origem curiosa, mas denegrida a uma luz secundária. Mais que isso, o início do filme preocupa-se em explicar que "nenhum bom herói nasce de uma mentira", mas a temática do desejo humano dificilmente se consegue reflectir no debate verdade versus mentira. Estes detalhes fragmentados e mal conseguidos abstiveram o filme de um fio condutor que poderia ter sido muitíssimo melhor polido e executado.
Jenkins escolheu o ano de 1984 por considerá-lo a altura em que aquela era atingiu o seu ponto mais alto. Várias referências e homenagens são feitas a tropos dos anos 80, que tudo o que adicionam ao filme é momentos em que a audiência poderá expirar fortemente do nariz, mas que hoje em dia, nada de incrível trazem para o ecrã. E apesar destes elementos desgastados, uma coisa que prevaleceu foi a incompreensão extrema de um mundo Ocidental sobre a cultura Médio-Oriental/Norte-Africana. Um bom terço do filme passa-se no Egipto, quando o vilão Max Lord viaja para lá em menos de duas horas para adquirir combustíveis fósseis ao "Rei Bruto" Emir Said Abynos (Amr Waked). "Emir" é um termo que não é usado no país em tempos modernos, e não obstante, outras personagens chamam-lhe por títulos de realeza, embora o estado já fosse uma democracia há quase 40 anos na altura do filme. Como se isso não fosse caricaturizado o suficiente, este homem é vestido em roupas que mais têm a ver com a cultura nos países vizinhos de Arábia Saudita e Emirados, do que com o país onde estão.
Estas roupas e falas seriam até ignoradas se não fosse as sequências conseguintes à introdução do Emir Abynos. Ele é uma pessoa cujo único desejo é expulsar todos os "hereges" da sua terra ancestral, principiando à construção de uma parede de cinquenta metros em redor de alguma parte sem nome do Cairo, que ainda assim contém dezenas e dezenas de quilómetros para uma perseguição em carros. É uma analogia que implica factores negativos, especialmente numa era em que uma das superpotências mundiais está a atravessar uma das piores fases de racismo e nacionalismo; não porque os Estados Unidos da América construíram uma parede também, mas sim porque envergonha a população Egípcia e líderes Muçulmanos no geral, ao ser comparada com ex-presidente Donald Trump, cabeça de estado na altura das filmagens.
Outro ponto estranho, que provavelmente deve-se ao envolvimento de Gadot na produção do filme, é a altura em que a heroína salva duas crianças de um atropelamento que envolve mísseis. A actriz, antes de ter a sua carreira, serviu no exército Israelita. Ainda mais famosamente que isso, em 2014 Gadot vocalizou o seu apoio a um ataque de drone Israelita na faixa de Gaza que matou quatro crianças Palestinianas. Ainda mais curioso, tal como as crianças vítimas, as raparigas muçulmanas do filme estavam também a jogar futebol no momento do impacto. Nem vale a pena mencionar como, quando o mundo parece estar num ponto de ruptura da Guerra Fria, os primeiros locais cuja sociedade começa a colapsar são ditos de passagem países Médio-Orientais.
Embora o filme faça um bom paralelo com o seu antecessor, ao colocar Steve no papel de Diana a descobrir um mundo completamente novo, a narrativa socio-política problemática é impossível de se ignorar. Existem vários filmes feitos nos anos 80 com estes estereótipos, que apenas se justificam com a mentalidade da altura, como Indiana Jones ou Back to the Future. Mas só porque a perspectiva dos realizadores e argumentistas da década era uma de ignorância, não há necessidade de imitá-los 40 anos depois.
Apesar de uma mensagem final de amor e unificação, muito emblemática das BD's da guerreira amazónica, Wonder Woman 1984 revela-se demasiado cliché e medíocre para ser considerado um bom filme. Birds of Prey foi mais colorido e vivaço do que esta película, com menos orçamento e meta-humanos menos célebres, e isso é dizer muito.
Fotos: IMDB.com/Sky Atlantic





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