Rewatch: Blindspotting (2018) - ★ 9/10

Durante dez anos Daveed Diggs e Rafael Casal estiveram a escrever este filme. Baseado nas suas experiências da sua cidade-natal, foi também produzido e actuado por eles, e realizado por Carlos López Estrada, veterano de vídeos musicais. Com comédia suficiente para diluir o drama, esta história conta uma perspectiva bastante interessante de um criminoso Afro-Americano, perto da sua liberdade.


Depois de três meses preso, Collin (Diggs) está em liberdade condicional há um ano, a três dias de ser liberado. Vive em Oakland, Califórnia, de momento numa casa de recuperação. Trabalha com o seu melhor amigo de infância, Miles (Casal), enquanto tenta manter-se fora de sarilhos. A sociedade Americana não facilita a vida a ex-condenados, mas no entanto, Collin tem uma genica para seguir em frente e tentar ultrapassar os seus erros passados. Na antepenúltima noite deste período, Collin testemunha um polícia branco a matar um fugitivo preto no meio da rua, sem aparente causa justificada. Visivelmente traumatizado, por mais frequente que este caso infelizmente seja, este evento influencia a narrativa consequente, em especial a sua relação com Miles.


Os dois jovens adultos são amigos há décadas, tendo crescido no mesmo bairro com as mesmas pessoas em seu redor. A história do filme dá foco à sua relação e companheirismo. Mais que parceiros, têm um amor fraternal um pelo outro. Apesar disto, é claro como Miles tem muitíssima mais liberdade que Collin para ter uma vivência mais intensa e tangente ao ilegal. Isto é evidenciado várias vezes, até logo no primeiro acto do filme quando ele compra uma arma de fogo a um conhecido. A intenção é moralmente positiva: ele sente que deve proteger a sua família, e esta é a maneira mais rápida, fácil, e frequente de o fazer. Collin mostra-se claramente incomodado com esta decisão, subtilmente apontando que não é apenas pelo seu estado civil. É apenas uma das muitas decisões que Miles toma, que incomodam o seu amigo, como alerta a ex-namorada de Collin, Val (Janina Gavankar), várias vezes.

A meio do filme, quando é-nos revelado o incidente que condenou o protagonista, apesar de ter sido ele a principiar a violência, a este ponto a audiência é levada a ponderar se a parvoíce terá sido influenciada, ou até catalisada, pelo seu companheiro. Desta maneira é criado um contraste entre duas pessoas, que vieram do mesmo sítio, mas que têm uma noção de liberdade muito diferente uma da outra, dadas as suas etnias. O filme torna-se num estudo sobre estas duas perspectivas, e o consequente tratamento delas pela sociedade Estado-Unidense; Collin esforça-se por conviver com a sua nova identidade, e Miles sente a sua identidade ameaçada pela gentrificação de Oakland.


O argumento foi escrito de uma maneira soberba, com cinco actos cujos primeiros quatro contam com tempos de antena extremamente parecidos. Ao invés de ter sido criada uma história simples, com início meio e fim, os maiores incidentes e elementos acabam a ser entrelaçados uns nos outros. Assim, consegue-se dar foco às peripécias das vidas das personagens, sem nenhuma ser propriamente a principal. O que é principal, e central, é o carácter dos dois homens em questão, e a evolução de tal, dadas as tribulações que lhes são apresentadas. Esta história, estruturada desta maneira, poderia até ter sido usada para fazer uma série episódica, tanto que foi a profundidade com que foi construída. Tanto as personagens, como a acção, como os seus redores, foram descritos e criados com um conhecimento e uma habilidade inigualáveis.

Não obstante, a cinematografia e fotografia estiveram excelentes. Por parte do grande Robby Baumgartner, cujo currículo inclui Argo, Babel, e Hunger Games, todos os elementos que compõe o que se encontra no ecrã são cuidadosamente escolhidos, colocados, e aperfeiçoados. Cada plano da película poderia-se tornar num perfeito quadro. Este trabalho realçou bem a substância em cena, quer fosse dramática, quer cómica, comédia esta que serviu para diluir a intensidade e dar um quê de naturalidade às conversas, sem ser tão exagerada que perdesse o realismo. Com uma escolha inteligente de música e de cenários que enquadrassem o núcleo da narrativa, criando um mundo independente e auto-suficiente.


A mensagem é potente, e mais relevante hoje do que quando começou a ser escrita. Apesar do seu epicentro serem os Estados Unidos, há tanto por onde se pegar e se deixar deslumbrar, que qualquer pessoas de qualquer canto do mundo consegue apreciar esta obra-prima.

Dois EP's foram lançados pelos actores principais, inspirados nas suas personagens, e uma série spin-off é capaz de acabar a sua produção ainda este ano. Dolorosamente cru, com actuações excelentes, incrivelmente trabalhado, com um dos desfechos mais climáticos e belos, Blindspotting é bem capaz de ser um dos melhores filmes desde o início do milénio.




Fotos: IMDB.com







Comentários