Malcolm & Marie - ★ 8/10

Sam Levinson pegou em metade da equipa de Euphoria, e principiou ir fazer o que ainda não tinha sido feito nestes novos e estranhos tempos. Malcom & Marie é assim a primeira longa-metragem completamente escrita, produzida, e distribuída durante a pandemia. Distribuído pela Netflix, que ofereceu mais dinheiro do que grandes como HBO e A24 pelos direitos, o filme com apenas dois actores e uma casa, dá-nos uma cápsula de quarentena, justificadamente arrogante.


Malcolm (John David Washington) e Marie (Zendaya) regressam da estreia do novo filme de Malcolm. Eles encontram-se cansados, depois de um longo dia, e tentam relaxar na casa pomposa em que a produção os colocou, que é onde se passa toda a acção. O homem está nas nuvens, a beber whiskey e a ouvir James Brown. A sua namorada, contudo, está a cozinhar uma ceia despachada, bem como uma discussão. Quando Malcolm nota que algo está de errado, Marie apenas lhe diz que é preferível falarem sobre o assunto no dia seguinte. No entanto, dada a pressão dele e a desilusão dela, Marie pergunta-lhe porque é que ele não lhe agradeceu no seu discurso. Esta pergunta, bem como a resposta, evolui para uma discussão entre este casal, que perdura os 106 minutos do filme.


Embora esta metragem seja dura em diálogo, a exaustão conversacional foi diminuída ao mínimo. Vários temas são trazidos ao de cima, o que leva a audiência a tomar o partido de um ou de outro, mudando a lealdade conforme os protagonistas revelam mais sobre o seu passado em comum. Dois pontos fulcrais são postos no holofote, o primeiro sendo a profundidade e o significado que os críticos dão a peças de arte. Malcolm explica que por ser preto, haverão pessoas que darão especial atenção à sua personagem principal da mesma etnia, enquanto que, nas palavras dele, foi uma pura coincidência. Às vezes filmes são apenas filmes, e frequentemente a audiência fala no contexto socio-político da produção, e como uma história influencia aspectos da sociedade. A personagem de Malcolm critica os críticos, especialmente os que odeiam algo só por odiar, pois "o nojo vende bastante". É uma manifestação da típica "os cortinados azuis simbolizavam tristeza", sem se saber se o autor não queria apenas dizer a cor dos cortinados sem uma intenção secundária.

Noutro ponto central, Marie explica ao seu parceiro que não está tão feliz na relação quanto aparenta. Depois de revelar à audiência que o filme foi baseado na vida dela, a discussão escala astronomicamente, trazendo uma ambivalência ao de cima para este casal. Ela aponta que, sendo que isto nem é considerado um grande problema para Malcolm, apenas explica a sua indiferença perante ela. Desta maneira, o argumento cria uma discussão sobre o que devemos uns aos outros, quando numa relação amorosa. Sem concluir nada em concreto, a história cria um diálogo, um estudo sobre como dois parceiros amorosos podem ter perspectivas tão diferentes sob as mesmas situações. Realisticamente, e exaustivamente, Marie passa por imensas emoções num espaço de horas, tentando finalizar a discussão, apenas para aproveitar para explicar mais dissatisfações. Intercalado com a primeira trama, a guerra deles não passa apenas por abuso verbal e psicológico, mas também por afirmações de amor, que leva a audiência a ponderar sobre a insegurança das personagens. Quando um artista conta uma história para um público, essa história deixa de ser do autor, e foi esta a ideia que Marie queria trespassar, tentando justificar a sua desilusão.


Visto o peso narrativo do filme, a sua estrutura estética não poderia voltar atrás. Filmado completamente em cinzentos, esta cinematografia básica revelou-se uma boa aposta para elementos eventuais que de nada serviam. Juntando isto a 35 mm, criou-se uma estética peculiar que emoldorou deslumbrantemente a hostilidade presente, servindo também para tirar alguma da fadiga que poderia causar ao espectador. Além disso, o primeiro acto foi filmado continuamente durante cerca de seis minutos, começando pelos créditos finais, e acabando com o título do filme. Isto paraleliza a vontade do casal de chegar ao fundo da questão, ao tirar a informação que não fosse fulcral para chegar ao que interessa logo na introdução.

Durante os doze actos do filme, cuidadosamente cronometrados, o ponto de vista apresentado começa por filmar a cena do lado de fora da casa, quase como um vizinho coscuvilheiro. Lentamente, mas a um paço natural, este ponto de vista avança para o nível de convidado de jantar, eventualmente transformando-se em participante na relação, à medida que conhecemos mais sobre as pessoas no ecrã. O próprio mise-en-scéne de Marcell Rév, e a trilha sonora da autoria de Labrinth, também simbolizam perfeitamente a inconstância do poder de quem está a falar no momento. A ausência de acção material foi uma lufada de ar fresco, para dar lugar a emoções fortes; embora existam críticos que tenham desgostado deste parlar soberbo, perdendo-se na ironia de um dos temas da metragem.


Deslumbrante e intenso, Malcolm & Marie pode muito bem ser uma das melhores apostas cinematográficas da Netflix (não que haja também muita competição naquela piscina de mediocridade). Sam Levinson mais uma vez prova que é um excelente contador de histórias nesta era que sobre-analiza todos os detalhes visíveis a olho nú. O filme pode também muito bem valer outro Emmy para Zendaya.




Fotos: IMDB.com/Netflix







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