Monsoon - ★ 6,5/10

Distribuído pela Pecadillo Pictures, companhia bem experiente em produções LGBTQ+, Monsoon é um filme escrito e realizado por Hong Khaou. Contando também com Henry Golding no papel principal, esta história, pesada em fotografia e no protagonista, conta uma história se calhar demasiado individual, mas com uma introspecção interessante.


Kit encontra-se no Vietname, seu país de origem, o qual a sua família deixou pela Inglaterra, quando este era apenas uma criança, dada a guerra civil há trinta anos atrás. Entre Saigon e Hanoi, ele procura um sítio de jeito para espalhar as cinzas dos seus pais, algo que se prova difícil, visto que ele não reconhece o país de onde veio, nem fala uma palavra que seja da língua. Procurando raízes que podem nem existir, ele acaba a reconectar-se com um amigo de infância esquecido, enquanto que ao mesmo tempo conhece um Americano por quem se apaixona.


A narrativa do filme não é propriamente o seu núcleo, embora isto não queira dizer que lhe falte substância. De certa forma, pode-se dizer que é uma história de descoberta, até de coming-of-age, no sentido em que é uma jornada quase ritualística para um maior sentido de senso próprio. Na demanda pelo sítio de descanso dos seus progenitores, Kit acaba por tentar encontrar algo mais. Sentindo-se desconectado de onde nasceu, também não sente um lar em Inglaterra, e como tal, passa grande parte da película a tentar ver o país pelos olhos dos pais falecidos. Tal prova-se difícil, pois Kit encontra um país apressado por caminhar para o futuro, apesar dos seus residentes sentirem-se ainda presos no passado. Desta maneira, Vietname quase que se torna num papel secundário, por vezes até de antagonista, sendo uma nação e uma cultura com que o jovem adulto se vê atribulado de identificar, mas que, ao final do dia, apenas procura paz com. Os seus cidadãos, cicatrizes de uma era não muito antiga, como que lembranças vivas da História do Estado.

Mas a inteligência usada para contar a experiência de um emigrante Vietnamita passou também pelas pessoas que ele encontra ao longo da jornada. Se calhar querendo um elemento de escape dada a razão pesada pela qual se encontra ali, Kit encontra-se com Lewis (Parker Sawyers), um Americano a viver em Hanoi, que procura expandir o seu negócio lá. Ele representa uma experiência também individualista, mas não única: o seu pai também Americano lutou na guerra, e consequentemente, teve vários problemas em enfrentar os seus demónios, atribulando o seu filho na sua infância. O protagonista encontra também Linh (Molly Harris) que vem de uma família tradicional, que dá lugar às cenas mais ternas da história, num negócio de família de chá de lótus, um dos maiores símbolos de tradição daquela cultura. O ofício dolorosamente longo de perfumar as flores não assenta bem a Linh, que diz que "só os velhos bebem esse chá", mas, delicadamente filmado, Kit acha todo o processo fascinante, uma emoção que é perfeitamente traduzida para o espectador, especialmente se este desconhece estes processos e estas vivências.


Utilizando planos longos que caem usualmente nas expressões de Golding, com fotografia soberba que perfeitamente reflecte o conteúdo emocional, Monsoon foi uma surpresa agradável. Poucos filmes conseguem enclausurar perspectivas tão diferentes, e ao mesmo tempo, colá-las de modo a que haja um fio condutor. É um excelente exemplo de algo que acabou a ser mais do que a soma das suas partes.



Fotos: IMDB.com







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