Nomadland - ★ 7/10

Jessica Bruder é uma jornalista Americana que escreve sobre subculturas. Frances McDormand apaixonou-se pelo seu livro sobre pessoas que vivem à beira da sociedade, passando o seu dia-a-dia em caravanas, sem nenhuma residência permanente. Quando contactou Chloé Zhao para fazerem um filme sobre o assunto, baseado nos eventos do livro, Nomadland foi o resultado. Peculiarmente interessante, este neo-western deslumbrou audiências pela sua simplicidade.


McDormand interpreta Fern, uma mulher nos seus cinquenta e muitos que, além de ter o pior nome na história da humanidade, decide viver na sua caravana. Fern perdeu o seu trabalho em Empire, Nevada, pouco depois do seu marido falecer. Quando se encontrou numa cidade fantasma no meio de nenhures, decidiu pegar em todo o seu dinheiro e comprar uma caravana para viajar o país. Encontramo-la in medias res, a trabalhar na Amazon, tendo já conhecido uns quantos aficionados deste estilo de vida alternativo.


A nossa heroína passa por inúmeros locais pasagísticos, e faz amigos cujas amizades parecem valer ouro. Ao invés de contratar actores para interpretar as pessoas em que o material de origem foi baseado, os próprios nomadas aparecem no filme como si mesmos. Em particular, Bob Wells é uma personagem secundária em ambos os projectos, o YouTuber e autor visto como um guru do conhecimento nómada. As relações interpessoais faz são a unidade que compõe esta comunidade; partilham memórias, ferramentas, sabedoria, e palavras de encorajamento. Isto porque, como Fern vem a descobrir aos poucos, é uma vida repleta de tribulações e contra-tempos. Não ter raízes implica imensos sacrifícios, como a história explica. No caso de David (David Strathaim), que eventualmente decide ir viver com o seu filho quando este se torna pai, para estar próximo da sua família. Contudo, quando apresentada com a mesma oportunidade, Fern rejeita.


As vistas panorâmicas, filmadas em local, compõeem um cenário deslumbrante, perfeitamente decoradas pelo grande Ludovico Einaudi. Estas paisagens explicam o que leva a estas pessoas deixarem as normas tradicionais, sendo muitas delas já de uma idade avançada. Fern, por exemplo, não tinha muitas opções, em tentar fazer uma vida com o pouco de benefícios que receberia de reforma antecipada, numa cidade vazia de vida. Inclusive uma amiga sua, Swankie, abre-se para com ela sobre o seu diagnóstico de cancro, e como ela prefere fazer boas memórias com o tempo que lhe resta.

Não é uma vida muito confortável, com caravanas a darem o berro, e pouco espaço para pertences materiais, mas é uma que proporciona os anos dourados roubados a esta sociedade. Desta maneira, o filme torna-se num embelezamento de ideias anti-capitalistas, pelo menos no país cuja economia provou-se volátil nas últimas décadas. Existe muita solidão nesta terra sem pessoas (No Man's Land, se me permitem, que pode muito bem ter sido a razão para o título desta história), mas é uma solidão necessária para conseguirem o que lhes foi tirado. Wells, contudo, explica que, nesta comunidade, as despedidas nunca são permanentes.


Sem grandes pressas, e com uma cinematografia invejável, Nomadland conta uma história enternecedora. Pode não ser das mais atraentes, nem das que prendem uma pessoa ao ecrã. No entanto, o filme ganha no que mostra, e torna-se num ode à vida muito bonito.

Despido de privilégios e de um arco narrativo abrangente, a metragem é apenas um pedaço do que uma vida destas pode ser, seguindo Fern por apenas um par de anos, tal como um nómada acaba por fazer.





Fotos: IMDB.com/Searchlight Pictures







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