Soul - ★ 8,5/10

Continuando o padrão de dar almas às coisas, a Pixar e a Disney desta vez quiseram dar almas às almas. Soul estreeou o ano passado, escrito e realizado por Pete Docter, também autor de provavelmente os melhores filmes da Pixar. Embora os primeiros actos possam ser apressados, esta história terna revela-se digna do seu lugar nesta grande companhia de animação.


Joe Gardner (Jamie Foxx) é um professor de música já adulto. Após anos sem conseguir encontrar sucesso na sua vida, como músico de jazz, uma oportunidade cai-lhe aos pés. Dorothea Williams (Angela Bassett) concede-lhe um lugar como pianista no seu quarteto, mas logo após de receber a notícia, ele morre. No plano espiritual, ele recusa-se a seguir para o que está para lá da vida, escapando para o sentido contrário, onde as almas são primeiramente formadas. É lá que ele encontra 22 (Tina Fey), uma alma em perpétua preparação, cínica para com a vida na Terra. Não querendo começar a sua vida, ela decide ajudar Joe a voltar ao seu corpo, antes que a sua grande oportunidade desapareça.

Na demanda da dupla pelos seus objectivos, cai a Joe o trabalho de ajudar 22 a navegar pelo mundo dos humanos. Depois de milénios, tem finalmente a oportunidade de experienciar o planeta de que tanto falam no seu plano de origem. Lá, na preparação das almas, uma das coisas que é requerida para entrar na Terra é uma Faísca nas suas personalidades. É este elemento fulcral que falta a 22, e que muitos já tentaram inspirar-lhe, dando lugar a "cameos" hilariantes de Abraham Lincoln, Muhammad Ali, Copernicus, entre muitos outros. Joe apercebe-se que a melhor maneira de o fazer, é levar 22 pelo mundo real, e ter contacto directo com o que o recheia. Apesar de Joe não ser tão cínico e amargo quanto 22, acaba a ser ele que aprende algo extraordinário. A mensagem da história passa por alegorias e simbolismo, nunca dizendo exactamente qual é, embora os elementos presentes poderem estar abertos à interpretação. Mas inegavelmente, Joe acaba a experienciar o mundo que conhece tão bem pela inocência de 22. Ele encontra, nesta demanda, uma reconexão com, não só o que realmente importa, mas com a própria maravilha que se apercebe que já estava a desvanecer-se. É um regresso às origens repleto de ternura e desolação, se calhar comparável a Zima Blue da série Love Death + Robots.


É de se esperar, a este ponto na História, que a Pixar entregue animações perfeitas. Contudo, conseguiram superar-se a si mesmos, não tanto pelo polido que estavam as arestas deste diamante, mas sim, pela experimentação incutida. Enquanto que podiam simplesmente dar-nos os panoramas fantástico aos quais estamos habituados, houve traços de um estilo diferente, um mais simplista e abstracto. A palete de cores e a cinematografia entraram num balanço perfeito, inteligentemente apropriado para cada um dos eventos que estava a decorrer. Invocaram todos os elementos de Nova Iorque na perfeição, o que ajudou para contrastar com o plano hipotético das almas, trabalhando bem para juntar fantasia a uma metrópole mecanizada.

Na esfera musical, houve um trabalho em conjunto sem igual. A própria música assume um papel secundário nesta narrativa, sendo um elemento fulcral na vida de Joe. O departamento sonoro usou cordas e percussões nos momentos mais inteligentes, adicionando todo um outro nível à acção no ecrã. Trent Reznor e Atticus Ross assumiram o comando da música new-age usada nos planos com mais fantasia, enquanto que Jon Batiste compôs os segmentos com jazz, passados maioritariamente em Nova Iorque. Reznor e Ross conseguiram dar um toque de mistério ao mundo hipotético, muito diferente do que estão habituados com as suas colaborações com Fincher, e Batiste criou música original que, não só fosse fiel à alma de jazz, mas que pudesse ser apreciado por uma audiência qualquer. Balançando isto com uma história incrível, a aventura ficou extremamente bem estruturada.


Com um clímax cheio de emoção, e mesmo assim, suficientemente minimalista, Soul é bem capaz de se tornar num clássico da Pixar. A universalidade é praticamente incomparável. É dos poucos filmes que se encontra em que dá para ver, que para todas as pessoas envolvidas, isto foi muito mais do que um simples trabalho.



Fotos: IMDB.com/Disney+







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