Como primeira longa-metragem de J Blakeson, foi de estranhar conseguir actrizes de renome para este filme. Sem muita informação sobre a sua génesis, I Care a Lot teve a estreia no Festival Internacional de Filme de Toronto de 2020, com uma recepção em banho-maria. Pouco depois, a Netflix adquiriu os direitos de distribuição, e em Fevereiro passado chegou aos nossos ecrãs. Embora tendo uma personagem principal forte, e um tanto refrescante, o filme parece ter-se esticado demasiado na probabilidade que um thriller pode conter.
Marla Grayson (Rosamund Pike) trabalha como guardiã legal de idosos para o estado de Massachusetts. Com um corte de cabelo que pode cortar cristais, e bem vista a olhos dos seus superiores, ela é a mente por detrás de um esquema ilegal em que extorque bens e dinheiro das pessoas de quem tem custódia. Racionalizando o seu egoísmo, ela tem vários outros empregados que participam neste esquema. Certo dia, ela encontra uma senhora (Dianne Wiest) bastante avantajada financeiramente, e decide que ela irá ser a sua próxima presa. No entanto, o novo alvo prova-se volátil, quando Marla descobre que o filho dela (Peter Dinklage) é um mafioso.
Para começar, a protagonista revelou-se ser o ponto forte do filme. Pike volta a cimentar-se como uma das melhores actrizes da nossa geração, num papel que requere imensa compostura. Além disso, ver uma anti-heroína/vilã feminina foi uma lufada de ar fresco numa indústria saturada de mulheres sem falhas algumas. Dito isto, não era muito necessário a protagonista explicar a terceiros que as suas motivações são maioritariamente influenciadas pela presença negativa de homens na sua vida. É perfeitamente possível criar uma personagem feminina poderosa, sem ela definir a sua personalidade a cada vinte minutos; um bom exemplo disto é Gone Girl, outro projecto com Pike no holofote, ou Promising Young Woman, também do mesmo ano.
Isto leva a crer que o argumentista queria à força toda que os espectadores percebessem o feminismo no filme, em vez de o fazer mais subtilmente, de modo a parecer orgânico. As audiências não são burras, não precisam que lhes expliquem tudo, e dificilmente a sua atenção é apreendida se elas se sentirem que estão numa visita guiada, em vez de uma aventura. Foi o completo oposto da regra de ouro da escrita: mostrar em vez de dizer.
Quando se vê um thriller que envolve burlas, confrontos, e tentativas de homícidio, tem de haver uma suspensão consciente dos elementos do mundo real, para se entregar à fantasia. Como tal, quanto mais realismo aparece numa história fictícia - melhor. Apesar da pseudo-máfia que Marla cria ser uma ideia original, além de conter cariz cómico suficiente para apaziguar o drama, a escala a que o faz, e a quantidade de variáveis incontroláveis, são demasiado improváveis. Este padrão começa no segundo acto, e aumenta exponencialmente, de tal maneira que o final do enredo se torna absolutamente insano.
Com trilha sonora esquizofrénica e cinematografia medíocre, não há muito a favor de I Care a Lot. Não foi de todo a melhor estreia para J Blakeson, e certamente foi uma sorte descomunal isto não ter ido para as salas de cinemas, de modo a poupar o autor de mais vergonha.





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