Baseado no conto "Story of your Life" de Ted Chiang, Eric Heisserer estreeou Arrival em 2016. Apaixonado pelo efeito emocional causado pelos trabalhos de Chiang, o argumentista queria que a história chegasse a uma audiência mais larga, e quase que desistiu do projecto, até encontrar 21 Laps Entertainment. Com o traço original do realizador Denis Villeneuve, que já queria fazer um filme de ficção-científica há algum tempo, esta história que lida com extraterrestres teve um sucesso estrondoso, compreensivelmente, dada o estupendo trabalho por todas as partes envolvidas.
Certo dia, 12 veículos extraterrestres gigantes chegam à Terra, sem aparente razão. Dr. Louise Banks (Amy Adams) é uma professora universitária linguística de renome, que é recrutada para se dirigir a Montana, a um dos veículos semi-circulares. Lá, explicam-lhe que ela irá trabalhar com Ian Donnelly (Jeremy Renner), matemático e cientista físico, para tentar comunicar com os seres visitantes. Tentando entender a linguagem deles, ela apercebe-se que os símbolos que os heptapods escrevem, reflecte a maneira como eles pensam, maneira esta que apreende todos os seus eventos temporais ao mesmo tempo, ao invés da experiência linear humana. Contudo, o seu trabalho é dificultado quando as várias nações não parecem querer comunicar e partilhar descobertas entre si.
Villeneuve esmerou-se ao criar um ambiente fantasmagórico, que explicava bastante bem a natureza da situação criada. Apesar de ter mudado certos detalhes estéticos do material de origem, foi uma mudança necessária para ser melhor recebida no grande ecrã. O uso de cores neutras com panoramas paisagísticos invocaram um espanto que paralelizou a exploração da fronteira Americana, incorporando os tempos correntes. Desta maneira, o território desconhecido que enfrentava as personagens foi perfeitamente enquadrado.
Ao mesmo tempo que o estranho e o estrangeiro teriam de ser reflectidos na cinematografia, a substância não poderia ficar atrás. Louise explica várias vezes que entender uma língua é um processo longo e tenebroso, mas apesar disto, usando narrações e revelações exponencialmente mais frequentes, a história nunca parece desenrolar-se lentamente. As ramificações linguísticas estão extremamente bem explicadas, bem como as teorias às quais se faz menção.
Parte do filme é dedicado à dicotomia de destino vs. livre-arbítrio, embora não seja sempre mencionado directamente. A escrita palíndroma dos extraterrestres deve-se à sua habilidade de experienciar o tempo de uma forma diferente dos humanos. O desfecho do filme revela que, embora com o conhecimento do futuro, Louise não muda absolutamente nada do que está para vir. É deixado em aberto se sequer ela tem esse poder de escolha. É um conceito difícil de apreender, mas que a história consegue manifestar o mais detalhadamente possível, ao criar uma semente na fantasia que se está a ver, e deixá-la germinar ao longo da metragem, levando a audiência a tirar as suas próprias conclusões sobre o que se passou.
Arrival é uma história muito realista sobre como o ser humano reage quando enfrentado com o impossível. De uma maneira subtil, e se calhar sem intenções disso, acaba sendo também uma carta de amor aos linguistas. Se não for um clássico daqui a uns anos, será um grande filme de culto.
Photos: IMDB.com





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