Attack on Titan | Temporada 4 - ★ 8,5/10

Há onze anos atrás começou a ser serializado um manga que contava uma história peculiar sobre um trio de amigos que lutava contra titãs canibais. Escrito por Hajime Isayama como sua primeira grande criação, em 2013 saiu a primeira temporada animada de Attack on Titan.

Apesar do sucesso constante, foi a revelação no antepenúltimo arc que arrebentou com quaisquer expectativas, e virou a história do avesso. A quarta e última temporada estreeou o ano passado, com uma mudança de estúdio controversial, mas ainda com a história de base soberba.


Quatro anos depois da vitória em Shingashina, o ponto de vista narrativo atravessa o oceano. Encontramos a nação de Marley no final de uma guerra supostamente causada pela sua perda recente de titãs. Gabi Braun, prima de Reiner, é uma criança-soldada fulcral nesta vitória, tendo um regresso triunfante à zona controlada de Liberio, sua casa. Contudo, Reiner encontra-se severamente deprimido, enquanto que Zeke apresenta-se estranhamente calmo. São-nos apresentados oficiais e cabeças-de-estado durante esta primeira parte, bem como outros guerreiros e candidatos que também fazem uso do poder dos titãs.

Willy Tybur, um Eldian de boas famílias alinhado com Marley, decide aproveitar os recentes actos militares para reunir representantes de todas as nações do mundo. Nessa noite, ele declara guerra contra a ilha de Paradis, justamente quando Eren, na sua forma de titã, rebenta com o palco.


MAPPA não é de longe o melhor estúdio de animação, os seus créditos sendo até um tanto limitados. No entanto, a animação questionável em certos episódios deve-se a mais do que a sua falta de experiência. A Wit Studios, prezada pela sua adaptação incrível e fiel do material de origem, reportadamente recusou-se a produzir os últimos arcos narrativos devido à pressão recebida para lançar os episódios o mais cedo possível. MAPPA foi a única que decidiu aceitar o desafio.

Embora o seu estilo seja muito semelhante ao do seu antecessor, com cores mais suaves e menos detalhe, houve um uso extenso de efeitos 3D para os eventos mais antecipados. É verdade que eles não tiveram a maior verba do mundo para o fazer, mas os titãs, particularmente, que são em grande parte as partes centrais da histórias, sofreram imenso. A estética e o ambiente sofreram em termos de qualidade. Contudo, o excelente trabalho por parte dos actores, bem como os confrontos mais controlados, ajudaram para distrair desta grande falha.


A história sim foi expandida a léguas inesperadas. Como se não bastasse a revelação de que existe toda uma civilização global para lá das paredes, é também mostrado como os protagonistas fazem parte de uma alegoria imensa. Os principais antagonistas provenieram, não só de uma vila como já tinha sido estabelecido, mas de uma zona controlada dentro de uma cidade, onde eles são tratados como menos pela sua etnia. Usam fitas ao braço com a estrela do Império de Eldia, e são indoctrinados com um desdém e asco pela sua própria História, e pela sua própria identidade. Vários paralelos são feitos, com a ajuda de extenso simbolismo, entre os cidadãos de Paradis e de Liberio, em particular como lutam entre si, muitas vezes sem se aperceberem das literais paredes para as quais foram renegados. A história de Grisha Yeager, pai do protagonista Eren, apenas se tornou trágica quando levou a irmã para fora de Liberio, para apenas verem um pouco do que se encontrava do outro lado. A alegoria da caverna vem à mente com esta pequena história, bem como o tema de liberdade.

Dito isto, Eren torna-se muito mais que um protagonista. Durante os quatro anos que se passaram, encontramo-lo mais frio, lógico, completamente vazio de emoções. Enquanto que há a dúvida se ele está a ser influenciado, quer por terceiros quer por memórias herdadas, ele parece reger-se por si mesmo, tornando-se, não só um anti-herói, mas um antagonista para com os seus ex-camaradas. Mais que nunca, procura liberdade a todos os custos, para si, para a sua raça, e para os falecidos. Eventos durante os passados anos são mostrados à audiência aos poucos, nunca sequer explicando completamente as motivações de cada personagem importante. Uma das poucas excepções é Gabi Braun - ela é uma pré-adolescente extremamente capaz, crescida e educada em Liberio de Marley, candidata a herdar o titã do seu primo. Obcecada com a aniquilação de quem ela considera serem seus inimigos, ela pode ser considerada um Eren feminino, a sua personalidade sendo exactamente igual à dele quando Shingashina foi dizimada. E ao vermos as falhas na sua lógica, ao mesmo tempo que vemos o Eren a seguir a sua, é de se ponderar se não existirão mais camadas quando achamos que já sabemos o núcleo. Se há coisa que esta série nos tem mostrado, é que Isayama sabe fazer reviravoltas.


A história terminou no passado dia 9 de Abril, mas, no entanto, a temporada acabou muito antes. Os próximos episódios apenas irão estrear em 2022, mas desta vez, pode-se assumir que sejam mais trabalhados, dado que terão imenso tempo para os adaptar, e o choque inicial da pandemia já foi apaziguado.

Attack on Titan, Shingeki no Kyojin, a tragédia de Ymir, o quer que lhe queiram chamar, é bem capaz de ser a melhor história proveniente de quadradinhos japoneses, se não das melhores do mundo. Pode não ter tido uma animação a condizer, perto do final, mas ao menos existiu.



Fotos: IMDB.com/MAPPA







Comentários